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segunda-feira, agosto 20, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dezessete - Ítaca

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XXIII da Odisseia, com o o reencontrod e Ulisses e Penélope]

finalmente Leopold Bloom volta a sua casa depois de diversos capítulos longe. o paralelo de suas peregrinações é com os 20 anos de aventura de Ulisses longe de Ítaca. uma última aventura o afasta de chegar: ter esquecido a chave. para entrar ele pula o portão e entra pela porta dos fundos, só então abrindo a porta para Stephen Dedalus com uma lamparina na mão.

eles se sentam, bebem um chocolate quente, conversam sobre aulas de italiano que Dedalus poderia dar a Molly. Stephen também recebe a proposta de pernoitar na casa da rua Eccles, 7, mas recusa a oferta. antes de ir, Stephen e Bloom mijam lado a lado, numa espécie de reconhecimento pelo baixio corporal (grotesco bakhtiniano?) um do outro. também comentam o céu estrelado.

Bloom volta para casa e bate com a cabeça na mobília (referência ao banquinho atirado contra Ulisses disfarçado em seu palácio na Odisseia), que foi mudada de lugar. também há evidências de Rojão Boyland pela casa toda e Leopold está convicto que ele e Molly treparam.

diferente da Penélope que se resguarda dos pretendentes, a fogosa Molly não se mantém casta esperando o retorno do maridão aventureiro. um detalhe é revelado: Blomm e Molly não trepam desde a morte de Rudy, o filho do casal, alguns anos atrás.

isso de certa maneira explica a compreensão Bloom da infedelidade conjugal de sua esposa. interessante a inversão do estreótipo masculino-feminino nesse caso. e em vez d eum Ulisses amtando a lançadas e flechadas nobres de Ítaca, Bloom pensa se se divorcia ou não e assume claramente sua impossibilidade coma ideia de matar qualquer homem.

Leopold sobe as escadas e encontra sua mulher deitada dormindo. ele se deita com a cabeça nos pés da cama e beija a bunda da Molly, que desperta e eprgunta coisas do dia. ele conta algumas e oculta outras. e o livro vai para seu próximo capítulo com o famoso monólogo de Molly Bloom.

vale destacar também as lembranças do pai suicida de Bloom,  deprimido como Laertes, pai de Ulisses. diferentemente do épico homérico, aqui a tristeza levou o velho à morte.

a linguagem é das mais divertidas. é um jogo de perguntas e respostas que se propóem objetivas, mas dado o adiantado da noite, os narradores estão sonolentos e enrolados. uma simples pergunta se parece com um tratado, fora a embromação para responder - parecendo piada com o Homero, cujas perguntas mais simples tem respostas muito longas.

lembre-se sempre: para Joyce todo o mundo ficcional é linguagem. portanto os eventos da trama interferem diretamente no modo narrativo.

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quarta-feira, agosto 15, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dezesseis - Eumeu

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XVI da Odisseia, com o Ulisses, telêmaco e Atena na cabana do Eumeu, o porqueiro]

Leopold Bloom leva Stephen dedalus para tomar um café, comer alguma coisa e curar o porre numa espelunquinha. Dedalus é o mala que espera-se dele, enquanto Bloom o tenta imrpessionar, pois gostaria de afinar sua amizade com ele.

no mesmo lugar, um marinheiro chamado W.B. Murphy conta histórias absurdas do que viu ao redor do mundo e que agora volta para ver sua mulher após muitos anos no mar.

(quem aí não se lembrou do Ulisses do Homero, por favor, estapeia a própria testa)

no fim, Bloom paga a conta e conduz Stephen para sua casa, que será o próximo capítulo.

o episódio homérico trata do encontro de Ulisses com Eumeu, seu fiel servo e porqueiro, disfarçado de um pedinte. Isso começa no canto XIII e se alonga por muitos outros, inclusive com chegada de Telêmaco. as relações mais visíveis estão nas conversas sobre política, amor e fidleidade em um lugar precário.

a técnica é a narrativa velha. vale lembrar que aqui começa o terceiro capítulo e os outros dois capítulos abriram com a narrativa jovem e com a narrativa madura. esse narrador aqui se perde, deixa frases pela metade, como se estivesse meio esclerosado, ou até mesmo com sono depois de tantas páginas. em vez de contar de forma simples, tudo é alongado e cheio de volteios.

aqui fica claro a força intelectual de Stephen e as limitações de Bloom, porém, sobra a boa vontade e o grande coração de Leopld em oposição ao blasé maleta do Stephen. resumindo, mesmo comendo com voracidade rins na manteirga eu beberia uma cerveja com o Bloom e não com o Stephen.

Se a primeira parte abriu com Stephen e a segunda com Bloom, a terceira parte começa com os dois.

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sexta-feira, agosto 10, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quinze - Circe

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[página da adaptação para os quadrinhos de A odisseia, de George Pichard]

esse capítulo é uma verdadeira zona.

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ele se passa no bordel. Stephen, Mulligan, alguns outros estudantes de medicina e Leopold Bloom são convidados pelas profissionais do sexo a dispender seu rico dinheirinho com uma noite de exultância carnal.

o grupo todo, menos Bloom, faz a festa com o bolso do Stephen, que toca piano e canta, muito louco de bebida.

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no final, o sensato Leopold, convence Stephen a ir embora. mas antes de sair, o jovem Dedalus quebra uma lâmpada sem querer e as cortesãs exigem o pagmento do reparo em um esquema superfaturado digno de uma CPI ou da

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Bloom argue que não e paga só o devido, sendo que ele já havia se autointitulado guardião do dinheiro de Stephen. isso não acaba bem e após um linda discussão com um militar britânico Dedalus toma-lhe uma porrada na cara e desmaia.

os guardas chegam para ver qualé e são convencidos, de boa, a vazar. Mulligan ajuda Stephen e o conduz direto para a terceira parte do livro, o capítulo 16.

esse capítulo é totalmente alucinado na parte da linguagem e escrito como uma peça teatral com rubricas e entrada dos nomes dos personagens antes de suas falas. Bloom é transformado em mulher e em porco num momento hilário (e também coroado governador), Stephen encontra o fantasma de sua mãe em um momento apavorante e o livro gera um momento incrível para o leitor. sem dúvida o capítulo que mais me emocionou e me deixou doido foi este.

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(sem falar no final tocante em que Bloom revê o filho morto)

essa alucinação toda tem a ver com a base homérica do capítulo, que é Circe, uma senhora mágica que exala sexo, no Canto X da Odisseia. Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos depois de chapa-los com o velho truque do boa noite, cinderela (que devia se chamar boa noite cronos) e o próprio saqueador de cidades só se salva porque Hermes deu a dica: come essa flor aqui que tu fica imune - detalhe importante: a flor se chama móli -- molly, móli, ahn-ahn?

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aí o Ulisses, coitado, é obrigado a trepar com a Circe pra livrar seus homens da maldição. ele faz o esforço e eles navegam para casa ou quase isso. tá aqui um resumo mais completo do episódio.

o capítulo mais longo do livro provavelmente deve sua imensa paginação à formatação de texto teatral - que palpito eu, seria escrito em formato de roteiro audiovisual se Joyce conhece o formato que se usa hoje em dia.

pois bem, atravessamos 15 capítulos e duas partes, no capítulo seguinte já estaremos em Ítaca e muito perto do fim já saudoso dessa odisseia.

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segunda-feira, agosto 06, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quatorze - Gado do Sol

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[o pôster bacanudo é do Nicholas Girling e pode ser comprado no site dele]

apesar do Paulo Coelho dizer que não gosta e que o Ulysses é um livro vazio, continuo com a minha leitura por pura teimosia, pois, afinal, o que mais pode ser dito depois de dom Paulete? 

ao livro que fez mal à literatura: este é um dos capítulos mais audaciososo do Ulysses - também chamado de difícil e de ilegível. veja só: a cena se passa na maternidade, onde a Sra. Purefoy está há dias em um parto complicadíssimo e Leopold Bloom resolve visitá-la. lá no hospital encontra Stephen e uma galera aprontando todas e bebendo mais ainda.

por alguma razão, Bloom fica com pena de Stephen e resolve cuidar do moleque pra ele não fazer merda. então a criança Purefoy nasce bem e todos resolvem cair na gandaia e Bloom vai junto. daí, o próximo capítulo que se passa num bordel.

o episódio homérico é aquele que os marinheiros do Ulisses desobedecem o aviso e carneiam os bois de Hélio, o Sol, para comer, invocando contra eles, óbvio, the furious anger do deus.

é mais um dos quiprocós da Odisseia: quando tudo parecia que se arranjaria, alguén faz uma cagada e eles não conseguem voltar pra casa. e você achava que a Uni era um problema.

agora, precisamos pensar com a cabeça do Joyce: ora, se a história se passa numa maternidade, com alguém nascendo, é óbvio que a linguagem tem de acompanhar. se algo nasce, a língua nasce também diante do leitor, mostrarei as raízes da lingua inglesa e parodiarei escritores importantes para o estabelecimento do idioma. é óbvio.

para os interessados em conhecer cada um dos textos parodiados, recomendo esse link aqui. e este ótimo resumo aqui também, ó.

nesse capítulo, o tradutor tem de sapatear. o Caetano Galindo optou por procurar correspondências de textos formadores do português para parodiá-los, o que me parece uma solução mui sensata. esse, sme dúvida, é o capítulo mais pra nerd de literatura do livro.

porém, marca outro fator importante pra prosa de ficção do século XX e XXI: a paródia e o pastiche.

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segunda-feira, julho 30, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Doze - Ciclope

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto IX da Odisseia, com o ciclope enchendo o caverão de vinho]

a história se passa num boteco, onde o Bloom vai para esperar a chegada de Cunningham. enquanto espera, é maltratado por algumas outras pessoas e principalmente por um personagem chamado Cidadão. e seu cão babento, claro.

gosto muitíssimo deste capítulo. o narrador é um personagem não identificado, que também está nessa mesa com o cidadão. aflora o preconceito contra estrangeiros e judeus conforme as bebidas são entornadas.

o Cidadão representa o ser preconceituoso, reacionário, militarista e nacionalista. ele mantém a postura de que está sempre certo, e tem uma visão limitada, que não admite questionamento. ele é o ciclope do episódio homérico.

como os ciclopes tinham um olho só, não tinham perspectiva. assim como o Cidadão que não enxerga nada em perspectiva.

na Odisseia, Ulisses e sua tripulação são aprisionados por um ciclope, Polifemo, que pretende os devorar um a um. o monstro sai durante o dia para pastorear suas ovelhas e coloca uma enorme pedra na entrada da caverna que impede a saída dos marinheiros.

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[adaptação xuxu em HQ da Odisseia, por George Pichard]

Ulisses, matreiro que só, arma um jeito de escaparem: embebeda o ciclope e afia um tronco de árvore que ele usa para furar o olho do monstrengo. depois, amarram-se junto às ovelhas para poderem fugir da caverna, já que Polifemo sentia pelo tato o que estava passando e permitia a saída das ovelhas.

no final ainda, Ulisses diz que o nome dele é Ninguém e dá uma trollada de linguagem no ciclope, que pede ajuda aos outros ciclopes, e explica que ninguém o deixou cego. no final, todo mundo foge e Polifemo atira pedras contra os barcos.

no Ulysses do Joyce, o combate acontece ideologicamente (embora o Cidadão atire uma lata em que o cachorro nojetão dele come contra o Bloom no final do capítulo). eles sentam lá, discutem, Cunningham chega, Leopold vai embora, e mói o Cidadão com respostas inteligentes sobre o sionismo.

quando ao modelo da narrativa, me dá até comichão na barriga de comentar: chamado de gigantismo pelo Joyce, ele usa de paródia de diversos estilos e de vários formatos, tipo cartas e atas, sempre com um discurso que busca engrandecer o ato mais banal, como o Bloom subindo as escadas que tem uma descrição de tom bíblico, lembrando a ascenção de Elias aos céus. aqui tem uma bela anotação sobre esse capítulo.

além disso, quem narra a história, mormente, é aquele personagem desconhecido que não gosta do Bloom, o que gera um ponto de vista muito batuta pra história.

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sexta-feira, julho 13, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dez - Rochedos Errantes

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[Mapa de Dublin]

a partir desse capítulo o grau de diversão lielsônica extrapola as escalas. a vontade que tenho é de continuar relendo os mesmos capítulos, mas sempre que me encorajo de seguir adiante, encontro outro capítulo tão divertido quanto o anterior.

temos 19 pequenos trechos da história de cidadãos de Dublin. entre eles os nossos caros Stephen e Leopold, e também Simon dedalus, as irmãs de Stephen, Rojão Boylan, e vários outros. todos eles andam pelas ruas de Dublin e a cada trecho nos oferece um ponto de vista sobre a urbanidade da capital irlandesa.

embora independentes, os trechos reaparecem encaixados nos outros como pequenas informações: descobrimos quem é o homem que perdeu o bonde no primeiro trecho e pra onde ia alguns trechos depois, por exemplo.

uma informação em um site que diz que a primeira parte, a caminhada do padre John Conmee e a última, a carruagem real que atravessa a cidade, são citadas em todos os outros trechos.

somando isso com a frase de Stephen sobre os dois senhores no capítulo 1, a igreja e a monarquia inglesa, temos uma puta ironia sobre os valores que percorrem as ruas de Dublin.

a técncia narrativa aqui chama-se labirinto, e consiste nessa deliciosa multiplicidade pontos de vista quebradas em pequenos trechos, capaz de gerar um quebra-cabeça para aqueles que pretendem encaixar todas as ações na ordem.

o episódio homérico não existe.

é, não tem.

os rochedos errantes era uma opção de navegação. a outra era passar entre Cila e Caríbdis, que foi o que Ulisses fez e é o capítulo nove do livro de Joyce. de acordo com as notas da versão da Alfaguara do Ulisses, o mito dos rochedos errantes é fruto de uma ilusão de óptica, que fazia os marinheiros acharem que as pedras se moviam para afundar os navios.

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quinta-feira, julho 05, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Oito - Lestrigões

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eis o momento do almoço. Leopoldo Bloom vai prum forra-bucho depois de ser expulso da redação do jornal. Todo este capítulo é ligado à comida. começa com a descrição de crianças comendo doces, vai pro Bloom que compra um pedaço de bolo pra dar pros pássaros e sai em busca de um lugar pra almoçar. ele vai rodar por Dublin até entrar num pub e ficar enojado com a forma que as pessoas comem e com o cheiro do lugar. pensa sobre o vegetarianismo e resolve comer um lanche mais comedido em outro lugar.

a escolha do lugar leva Bloom a passear por Dublin, levando em conta que precisa passar na biblioteca - que será o cenário do próximo capítulo.

nesse trânsito, Bloom é informado da sra. Purefoy, que está em um parto bastante difícil. ela vai ser visitada por ele no capítulo 14. a técnica narrativa chama-se peristáltica, cujo nome deriva de movimento peristáltico, que é o movimento involuntário, que por exemplo, o esôfago faz para engolir a comida. a ideia é que são movimentos não racionalizados que levam a comida ao seu lugar adequado.

no caso da narrativa, são as ações e as palavras que empurram o personagem e a atenção do leitor em direção do final do capítulo. o capítulo conduz toda a narrativa para o seu final. há váriaspistas dos próximos capítulos espalhadas.

o paralelo homérico daqui é com o episódio do Lestrigões, no canto IX, um povo canibal que devora alguns marinheiros de Ulisses e destrói todos seus navios, menos um, o do valoroso filho de Laertes (o Ulisses). se eles sõa canibais e se portam como selvagens, o capítulo de Joyce é sobre comdia e repugnância.

atenção para indicações olfativas e palatais. depois do lanchinho do senhor Bloom, vamos para a biblioteca.

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terça-feira, junho 26, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Éolo

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[página da adaptação para os quadrinhos de A odisseia, de George Pichard]

nesse episódio, que está no Canto X da epopeia de Homero, o Odisseu valoroso (Ulisses, pros íntimos e latinos) conta suas desventuras na corte do rei Alcino.

James Joyce usa o episódio em que Ulisses desembarca na ilha do deus Éolo - sim, aquele que é vento. Lá, o grego chora as azeitonas pro Éolo, que diz que vai ajudá-lo,e dá um saco com todos os ventos, mas Ulisses não deveria abri-lo.

aí Homero faz o que sabe melhor: mostrar a cobiça humana. os marinheiros de Ulisses ficaram putinhos porque ele é quem leva os elogios e os presnetes por onde passa enquanto eles ficam ali criando calo na mão (por causa dos remos). acham por bem, portanto, pegar parte do tesouro para si, e abrem a sacola com os ventos.

uma grande tempestade se forma e o barco é jogado de volta à ilha de Éolo, que dessa vez, expulsa os visitantes, por não terem seguido seu conselho e terem se mostrado amaldiçoado pelos deuses.

em Ulysses, o capítulo está cheio de ventos, ares, brisas e dispositivos que colocam o ar em movimento. e no paraleo mais óbvio, Bloom é expulso pelo editor do jornal quando retorna com uam contraproposta para o anúncio, negando a esse Ulisses também a ajuda.

no próximo capítulo, os Lestrigões. saia daí, mas volte.

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quarta-feira, junho 20, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Hades

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XI da Odisseia, com Ulisses contando sua história para o rei Alcino]

esta é a primeira vez no livro que Joyce vai deslocar uma cena da Odisseia da sequência de eventos criada por Homero. antes de chegar ao Hades, no canto XI, Ulisses se encontrar com Éolo, com os Letrigões, com o Ciclope e com Circe, cenas que no Ulysses são posteriores.

Ulisses, aconselhado por Circe, vai até o Hades, que é a morada dos mortos, para conversar com o sábio Tirésias e descobrir um jeito de voltar pra casa mais susse, pois desde daquela época os portos já estavam virando rodoviárias (#Cidadãogregosofre) e aproveita pra colocar a conversa em dia com várias parças que caíram na guerra de Troia, tipo o Agamenon e Aquiles (aquele do calcanhar).

para conversar com os mortos há todo um ritual com sacrifícios animais. somente a alma que beber o sangue sacrificial recuperará a memória  e o dom da fala e poderá trocar uma ideia com o autor do sacrifício. em Ulysses, Bloom acompanha todo o cerimonial de enterro e ao contrário de Ulisses que é sempre ouvido por suas "palavras aladas", Bloom é grosseiramente cortado diversas vezes por diversas pessoas diferentes.

no livro do Joyce, Bloom e aqueles que o acompanham falam com de mortos e lembram deles o tempo todo. uma relação bacana é que o defunto Paddy Dignam morreu do coração de tanto beber e na Odisseia um dos companheiros do Ulisses morreu na casa de Circe porque tava travado de vinho e caiu do telhado. ou seja, o álcool abotoou o paletó dos dois.

muitas histórias de afogamento e de se molhar ou nadar e cair na água, não só neste capítulo, mas em todo o livro, fazem paralelo com os marinheiros de Ulisses que naufragaram ou morreram no mar.

Bloom também conta os presentes no enterro e são 12 e mais ele, assim como Alcino tinha 12 reis e mais ele a receber Ulisses. sem falar no óbvio 13, número místico até o radical.

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sexta-feira, junho 15, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Seis

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[Kirsty White em desenho para uma edição da Penguin do Ulysses]

finalmente, Leopold Bloom vai para o velório de Paddy Dignam. o capítulo começa com Bloom sendo convidado a ir na mesma carruagem que Simon Dedalus (pai de Stephen), Martin Cunningham e Jack Power.

enquanto o carro passeia por Dublin em direção ao cemitério, os personagens conversam e contam causos, como o o menino que caiu no rio Liffey e foi resgatado pelo cós da calça com um gancho ou do defunto que rolou para fora do caixão numa curva mal-executada pelo cocheiro. Simon não vê seu filho Stephen, embora ele tenha sido avistado de passagem pelos demais passageiros.

por todo o capítulo os mortos serão lembrados e como é habitual na Irlanda, no Brasil ou onde quer que se junte mais de 3 a gracejar, surgem os comentários preconceituosos. no caso, contra estrangeiros, judeus e suicidas. o pai do Bloom é um estrangeiro, judeu e suicida, tornando o nosso caro Leopold vítima dessa porra toda.

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o modelo narrativo aqui foi chamado de incubismo por Joyce. uns teóricos doidões atribuem isso ao demônio sexual masculino íncubo, que estaria como que possuindo o capítulo e sugando-lhe a energia.

eu, irresponsavelmente imodesto, não vejo bem isso. acho que o incubismo pode ser de incubado, como se o narrador estivesse dentro dos personagens, particularmente, Bloom. seria um narrador-pomba-gira que baixa no personagem.

evidências que enxergo pra isso: aqui a técnica de o narrador usar o léxico do personagem é mais exemplar que qualquer capítulo anterior. a descrição feita da missa e seus rituais é cheia de termos coringas, de quem não conhece o ritual católico, tipo um judeu feito o Poldy. os pensamentos de Bloom - sobretudo sobre morte e mortos, claro -- mas também da trepada dele e da Molly que resultou no filho já morto, Rudy -- - entram no meio da descrição das ações o tempo todo (sob esse aspecto uma versão reduzida do terceiro capítulo).

no final, Bloom dá um aviso pra John Henry Menton com quem ele quebrou o pau jogando bocha uma vez, que o seu chapéu está torto, deixando-o "sem saber onde enfiar a cara" (MÃE, Minha). esse senhor Bloom é demais.

ah, e apesar de estar em comic sans, www.iwate-pu.ac.jp/~acro-ito/Joycean_Essays/U06_insurrection&life.html" target="_blank">aqui está um puta artigo sobre este capítulo. "Obrigado. Como estamos magnânimos hoje."

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quarta-feira, junho 13, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Cinco

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto IX da Odisseia, com Ulisses contando sua história para o rei Alcino]

nesse quinto capítulo, nosso querido amigo Leopold Bloom vai andar um pouco por Dublin enquanto espero o horário do enterro de Paddy Dignam. evidencia-se aqui que ao contrário do Ulisses da Odisseia, quem tem tido casos fora do casamento é Molly. ou melhor, casos carnais, porque leopold Bloom mantém uma caso via carta com uma mulher sob o pseudônimo de Henry Flower.

e também recebeu da sua palavramante uma flor seca no envelope.

esse é um capítulo muito bem amarrado ao episódio homérico e, diferentemente de antes, vou colocar todas as minhas observações nessa mesma postagem e partimos em um dia próximo para o capítulo 6.

o episódio de referência é o dos lotófagos, ou dos comedores de lótus (permaneça perceptivo para flores nesse capítulo), que é um trecho dos mais miúdos na Odisseia (capítulo IX, versos 61 a 78). e esse capítulo é bastante exemplar do tipo de relação que Joyce constrói entre o seu livro e a epopeia homérica.

explico:

na Odisseia, os lotófagos passam o dia inteiro comendo flor de lótus e fazem porra nenhuma - tipo quase todos nós na internet - e alguns homens que o Ulisses mandou lá ver qualé entraram nessa pira (literal-metaforicamente) e foram arrastados por seu valoroso capitão de volta ao mar.

no livro do Joyce não vai ter ninguém chapado ou comendo flor, mas o capítulo todo estará obnublado, como se o narrador tivesse meio anuviado. o estilo narrativo que Joyce chamou de narcisismo tem tudo a ver com o ficar dentro de si e não agir muito bem no mundo exterior, até que a água te afunde na realidade.

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todo o capítulo é preguiçoso, segue um "dolce far niente" e termina com o Bloom tomando um banho. todos os aromas e sabores são valorizados aqui, como se os sentidos de Bloom fossem muito mais aguçados.

ele encomeda um perfume de flor de laranjeira para Molly (esse cheiro é associado a ela durante todo o livro) e compra um sabonete com odor de limão. a última cena desse capítulo é Bloom flutuando na banheira e seu pau sendo comparado a uma flor.

(uma avaliação pelo viés do grotesto e do baixio corporal rende horrores nesse livro)

Bloom anda pela cidade, vê vitrines de chá, encontra McCoy, que faz Bloom lembrar do golpe da mala - que se não me engano, rolou num conto do Dublinenses - apanha a carta da Martha, a amante datilográfica, se livra do envelope, resolve encomendar o perfume de flor de laranjeira e comprar um sabonete para o banho, e antes de se lavar, cruza com Garnizé Lyons que lhe pede o jornal emprestado, age d emodo estranho e sai correndo. Bloom entra no banho e é isso.

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quinta-feira, junho 07, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quatro - um adendo

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encontrei uma análise em inglês que lista umas coincidências entre o primeiro e o quarto capítulo do Ulysses que eu deixei passar: Dedalus e Bloom veem o sol ser encoberto por uma nuvem, ambos saem de casa sem a chave e outros penduricalhos.

tá aqui, ó: [Spark Notes]

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quarta-feira, junho 06, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quatro - Calipso

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto V da Odisseia]

do mesmo modo que a Odisseia começa a narrar as aventuras de Ulisses e deixa Telêmaco um pouco de lado, aqui o Ulysses joyciano recomeça e passa a companhar a Leopold Bloom, o Ulisses irlandês.

ao contrário do herói grego, Bloom não é nada heróico, guerreiro ou distinto em relação aos demais. ele é um homem comum e pacífico. na episódio homérico, Calipso (a ninfa, não a bolacha) recebe o mensageiro dos deuses que lhe manda deixar Ulisses ir embora (ela mantém Ulisses prisioneiro como seu amante desde o fim da guerra de Troia).

por sua vez, Bloom recebe cartas e serve, como Ulisses, a sua ninfa/esposa na cama, Molly Bloom (no último capítulo, Molly será Penélope - ou seja os papéis não são únicos ou fixos). há um quadro de ninfas sobre a cama.

assim como Calipso (a ninfa, não a banda), Molly é uma figura sensual e bastante sexual, que permanece nesse capítulo todo an sua cama, recebe o café da manhã e a carta de um homem - que Bloom desconfia que seja o amante dela.

em Homero, Calipso deixa Ulisses partir para que volte pra casa e pare de chorar na praia, dá pra ele comida e condições para que parta. porém, Poseidon fica fulo com a liberação de Ulisses por parte dos deuses olímpicos (eles tretaram nas costas do deus dos mares) e arrebenta a jangada que Ulisses usava pra voltar pra casa e ele chega em terra firme, mas ainda não é Ítaca.

enquanto isso Bloom come e vai ao banheiro, para sair de casa e viver sua odisseia de algumas horas, bem menos que os 20 anos de Ulisses.

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terça-feira, junho 05, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quatro

[desenho de James Joyce com a primeira linha da Odisseia em grego]

finalmente, o Leopold Bloom entra no livro. Cronologicamente, voltamos para 8 horas da manhã. ou seja, as ações daqui são simultâneas aquelas do primeiro capítulo. toma-se café da amnhã lá e aqui.

o Caetano Galindo, tradutor dessa versão, já disse várias vezes que quando se chega no quarto capítulo é como se alguém abrisse a janela do livro e entrasse sol em todo ambiente.

o senhor Bloom prepara café da manhã para sua esposa, Molly, conversa com a gata, dá uma saidinha rápida apra comprar um delicioso (#NOT) rim de carneiro para preparar na manteiga, tenta sair rápido do açougue pra ver uma bela bunda, perde o timing das ancas, volta pra casa, pega as cartas (uma pra ele e duas pra Molly), leva o chá da manhã pra ela, explica o que é metempsicose, fica cabreiro com uma das cartas, é lembrado por Molly (e pelo cheiro de queimado) do rim no fogo, dá uma topada na perna da cama, salva o rim da incineração, dá a parte queimada para a gata, come a outra com pão enquanto lê a carta (que é de sua filha, Milly), sente os intestinos trabalharem, vai pro banheiro, se limpa com um pedaço do jornal e ouve os sinos badalarem.

[cena de Ulysses, de 1967]

nesse meio tempo lembra-se do enterro que vai acontecer hoje (pobre Dignan), descobrimos que é uma quinta-feira, que é dia 16, e que possivelmente é junho, embora haja alguma chance pra julho e que Bloom conhece Simon Dedalus (que os leitores de Um retrato lembrarão ser o pai de Stephen).

a narrativa se assemelha a da primeira parte do livro, mas graças ao modelo de narração, aqui é mais leve, divertido e apetitoso (apesar do rim). a ideia é que o narrador joyceano, mesmo em terceira pessoa, se deixa invadir pela visão de mundo do personagem que está em sua alça de mira narrativa. esse narrador usa o léxico que o personagem usaria e tem o seu humor. isso torna os primeiros capítulos mais sisudos e a partir daqui o livro mais divertido.

bem vindo, senhor Bloom, o dito mais complexo dos mais simples homens-literatura de todas as páginas.

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quinta-feira, maio 31, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Três (p. 1)

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eis o famoso monólogo de Stephen Dedalus, tanto citado, que muita gente diz ilegível. se por não ler você quer dizer não entender de todo, é exatamente isso. é possível catar diversas referências, mas isso é mais para uma megacuriosidade e se você fizer absoluta questão de saber tudo que rola na cabeça de Stephen (o que são os caldeirões de carne do Egito?), tem duas chances: uma é olhar as notas da edição da Objetiva do Ulisses, traduzida pela Bernardina Pinheiro e outra é a acessar o Ulysses annotations. comentarei uma ou outra aqui.

a técnica aqui é o tal do monólogo interior. o narrador em terceira pessoa sofrerá inteferências e mutações a partir do fluxo de pensamento de Stephen Dedalus. Vamos ver como isso funciona aqui no primeiro parágrafo:

(e o Caetano e a Bernardina, sensatamente, excluíram um tal de marisêmen e maribodelha que tinha na tradução do Houaiss)

"A inelutável modalidade do vísivel: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele os sabia corpos antes de sabê-los coloridos. Como? Metendo a cachola neles, claro. Vá com calma. Calvo ele era, e milionário, maestro di colore che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se você consegue enfiar os cinco dedos é um portão, se não uma porta. Feche os olhos e veja.

Stephen fechou os olhos para ouvir suas botas triturarem estralantes conchas e algas.[...]" (p. 140-141)

o capítulo começa na voz do Stephen. ou melhor dando voz aos pensamentos de Stephen. ele olha para o mar, vê algas, águas e uma bota. depois, fecha os olhos e anda cegamente pela praia, ouvindo o som de seus passos.

o texto em itálico é italiano, e é dito por Dante na Divina Comédia para se referir a Aristóteles, que é o dono conceitual do parágrafo. o papo de diáfano, limite de cores, inelutável modalidade do visível são ideias aristotélicas que o Stephen relembra e cita. até algumas ideias de estudiosos de Aristóteles são citadas.

mas, e isso é importante na maquinaria narrativa desse capítulo, a palavra Aristóteles não foi usada (e nem será) embora boa parte de seus conceitos estejam no capítulo. a proposta não é apontar, mas rodear. não há uma clareza sobre o fluxo de pensamento. "Feche os olhos e veja." mas ao se analisar no miúdo, chega a ser bonito a maneira que o Joyce os ordenou.

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quanto às ações, o que rola é basicamente está nesse gif tosquinho aí de cima. o Stephen anda pela praia de olhos fechados e pensa em Aristóteles, se lembra de Paris, pensa nos livros que gostaria de escrever, lembra do caminho pra casa da tia, se imagina lá, mas não vai, vê dois cachorros um vivo e um morto, fica com medo de ser mordido (pelo vivo), senta pra escrever, está sem papel, usa um pedaço da carta do Deasy, pensa no cadáver de um homem afogado, percebe-se sem o lenço e deixa a meleca que tirou do nariz numa pedra na praia.

ah, informação que só teremos depois. o óculos dele tá quebrado, então em vários momentos Stephen fica na dúvida sobre o que viu. diáfano, adiáfano.

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segunda-feira, maio 28, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dois (p. 1)

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Vamos ao nosso sobranceiro e fornido guia da leitura do Ulysses. se tu chegou agora e quer entender o que está acontecendo, leia as postagens cronologicamente e tudo ficará bem, eu prometo.

este segundo capítulo é mais curto e de leitura muito mais rápida que o primeiro. o estilo catecismo (pessoal) é esse estilo cheio de perguntas e respostas do texto. ainda estamos na Telemaquia, ou seja, acompanhamos Stephen Dedalus.

e onde começa o capítulo? começa no meio da aula de história (que é a arte desse capítulo) que Stephen dá a seus alunos.

e os alunos gostam de Stephen? Olha, até gostam, mas ele não aquele professor transformador. mal bate o sinal saem a toda para jogar Hockey.

todos eles se vão? Não, um menino, Sargent, pede ajuda a Dedalus, que muito de má-vontade, atende ao piá.

mas porque má-vontade desse tipo? porque ele acaba por se reconhecer naquele menino frágil e odioso, que mesmo assim, é amado pela mãe.

isso quer dizer que retoma-se o espectro da mãe a assombrar o senhor Dedalus? sem dúvida retoma-se.

tá, mas e daí? daí o senhor Deasy chama Dedalus ao seu gabinete para lhe pagar o salário.

mas só isso? não, o senhor Deasy também pede para que Stephen leve uma carta que ele escreveu denunciando uma conspiração judaica-manchesteriana para acabar com a moral do gado irlandês, acusando-o de ter febre aftosa.

e o senhor Deasy deve ser levado a sério? não, ele é um preconceituoso, elitista, monarquista e antissemita. evite esse tipo de companhia.

e o Stephen joga a carta do nazista avant la guerre fora? não, ele a guarda no bolso e ainda tem de ouvir uma piadinha antissemita no fechar do capítulo.

mas cadê a história, que é a arte desse capítulo? infiltrada nos diálogos, principalmente história da Irlanda que dá as caras no papo de Deasy e Dedalus.

bacana! tem alguma citação bacanuda pra mostrar? sim, anotei algumas:

"O rosto de menino cegamente perguntava à janela cega.

Fabulado pelas filhas da memória. E no entanto foi de algum modo como se não como a memória fabulou. Uma frase, então, de impaciência, o baque das asas do excesso de Blake. Ouço a ruína de todo o espaço, vidro estilhaçado e alvenaria desmoronada, e o tempo uma lívida flama final. O que nos resta então?" (p. 124) - Stephen diante da indecisão de um aluno em responder-lhe.

"O píer de Kingstown, Stephen disse. Isso mesmo, uma ponte desiludida." (p. 125) - aula de Stephen

"Para eles também a história era uma estória como outra qualquer repisada demais na memória, sua terra, uma loja de penhores." (p. 125) - Stephen sobre seus alunos

"Tem de ser um então movimento, uma manifestação do possível como possível.[...] O pensamento é o pensamento do pensamento. Plácida luz. A alma é de certa forma tudo que existe: a alma é a forma das formas. Súbita, vasta, placidez incandescente: forma das formas." (p. 126)

"Ela não era mais: o trêmulo esqueleto de um graveto queimado no fogo, um odor de jacarandá e cinzas úmidas. Ela o salvara de ser pisoteado e havia ido, mal tendo sido." (p. 129) - Stephen, sobre a imagem da mãe morta.

"Pela página os símbolos mourejavam em dança grave. Graciosos na arlequinada de suas letras, usando gorros de quadrados e cubos. Deem-se as mãos, cruzem, saúdem o parceiro: assim: diabretes da imaginação dos mouros." (p. 129) - narração de Sargent fazendo a lição de matemática.

"Como ele era eu, esses ombros caídos, essa falta de graça. Minha infância se curva a meu lado. Longe demais por que possa pôr-lhe a mão uma vez ou levemente. A minha está distante e a dele secreta como nossos olhos. Segredos, sílices silentes, repousam nos palácios escuros de ambos nossos corações: segredos exaustos de sua tiranias: tiranos desejosos de se ver destronados." (p.129-130) - Stephen se reconhecendo no pequeno Sargent.

"– Eu tenho medo dessas palavras grandes, Stephen disse, que nos deixam tão infelizes." (p. 133) - Stephen em diálogo com Deasy.

"– A história, Stephen disse, é um pesadelo de que eu estou tentando acordar." (p. 137) - diálogo com Deasy.

pra mim, essas duas últimas frases são tatuáveis de tão boas.

 

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sábado, maio 26, 2012

"Chegou a hora de ler o Ulysses" - Sergio Rodrigues

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abaixo vai o texto do Sergio Rodrigues, publicado em seu blogue sobre o Ulisses, de James Joyce e sua nova tradução. concordo com ele, mesmo eu sendo um cara entusiasta dos enigmas joyceanos no livro. vai o texto:

"CHEGOU A HORA DE LER O ULISSES - MAS SEM STRESS

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer."

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sexta-feira, maio 25, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Um (p. 2)

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[a imagem aqui de cima é David Byers Brown que fez uma ilustra para cada canto da Odisseia e se reporta ao Canto I (a de baixo é do canto II).]

essa partezinha do guia aqui é dedicada aos paralelos com a Odisseia de Homero. essa é a parte pra os nerds da literatura, que vão obcecadamente querer encontrar os detalhes.

obviamente, eu mesmo passo longe de dar conta, mas a cada nova leitura, tanto da Odisseia quanto do Ulysses, é possível perceber uma ou outra coisa.

sobre a Odisseia, informações bem gerais:

é uma obra épica (no sentido de gênero), escrita em versos e em grego por (supostamente) Homero, milhares de anos atrás. há um gigantesco arranca-rabo teórico se a Odisseia foi composta oralmente ou não, se Homero existiu ou não, se o livro é uma obra contínua ou um ajuntado de diversos outras pequenas epopeias.

a trama geral é o Ulisseus (ou Odisseu daí Odisseia;  a Eneida é a aventura de Enéas, a Orestia de Orestes e por aí vai) tentando voltar para casa depois de 20 anos longe. Telêmaco está crescido e sua casa foi infestada de usurpadores que pretendem se casar com Penélope, mulher de Ulisses, já que ele pode estar morto. no final ele volta, mata todos os pretendentes e tudo fica bem.

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[Telêmaco bate boca com o povo pedindo ajuda pra botar a casa em ordem; cagaram pra ele.]

alguns estudiosos dividem a Odisseia em pequenas aventuras aventuras menores, miniepopeias: Telemaquia, Ulisses contando sua história, Descida aos infernos, retorno à Ítaca... elas variam conforme o estudioso, mas a tal da Telemaquia é meio sucessinho e sempre tá por ali. ela trata das aventuras de Telêmaco em busca de seu pai, Ulisses, nos 4 primeiros cantos do livro.

(a divisão da Odisseia que chegou até nós é de 24 cantos. a ideia de canto é pela apresentação oral dos versos da epopeia e pelo seu ritmo dado pelo tipo de verso: hexâmetro datílico (ahn?)

eu explico: um hexametro são 6 (hexa) pés métricos. um pé métrico são 3 sílabas poéticas. o datílico é o tipo de pé métrico. o que faz um pé métrico mudar em relação ao outro é a ordem das sílabas poéticas, que se dividem em dois grupos: longas e breves.

ué, mas as sílabas não são fortes (tônicas) ou fracas (átonas)?

em português, sim. pois nosso idioma não usa o recurso da duração vocálica para criar sons significativos. por exemplo, sabiá, sabia e sábia diferem em onde está o acento tônico, ou seja, em qual é a sílaba mais forte.

no grego (são diversos dialetos usados na Odisseia, mas serei irresponsável e chamarei tudo de 'grego') de Homero, as sílabas não tem tonicidade, tem duração. num exemplo bem tosco, é como se dizer que sabiá significasse uma coisa diferente de sabiááá.

e a alternância entre vogais longas e breves constitui o ritmo do texto em grego - o latim também é assim.)

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no primeiro capítulo do Ulisses, Buck Mulligan tira um sarro do nome do Dedalus, um nome absurdo, já que grego, mas o dele, Malachi Mulligan, também são dois dátilos, que veja você, é o pé métrico usado na odisseia homerica. rá. que piadinha pra nerd, hein? (eu avisei lá em cima).

há também uma citação em grego no meio do texto ' Epi oinopa ponton', que é usada para descrever o mar para onde Dedalus e Mulligan olham, que também está na Odisseia.

Joyce dividiu seu livro em 3 partes: Telemaquia, Odisseia e Nostos. Telêmaco é Stephen Dedalus, Leopold Bloom o Ulisses e Molly Bloom é Penélope. os três primeiros capítulos são a telemaquia joyceana.

o usurpador do filho, que são os pretendentes em Homero, em Joyce são Buck Mulligan, a coroa inglesa perante a Irlanda e a igreja católica diante do ceticismo de Dedalus. "- Eu sou criado de dois senhores, Stephen disse, um inglês e um italiano." (p. 120)

no Ulysses há várias citações a um homem afogado e em Homero muitos aqueus (o povo de Ulisses e Telêmaco) são mortos no mar pela fúria de Poseidon, defensor dos troianos.

Tanto Dedalus quanto Telêmaco tem uma preocupação constante com sua mãe, mas por razões diferentes.

em Joyce não vejo uma representação de Atena, que acompanha Telêmaco o tempo todo na Odisseia. isso quer dizer duas coisas: que eu não vi a referência ou que é mais uma investida na ideia do cotidiano do homem comum e não-heroico (a nova ortografia proíbe esse hífen, mas eu, maloqueiro ortográfico, uso assim mesmo) que terá seu ápice em Leopold Bloom e nesse sentido, é o oposto de Ulisses.

vamos para o segundo capítulo?

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quinta-feira, maio 24, 2012

Leiturossia do Ulysses - Capítulo Um (p. 1)

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no primeiro capítulo do Ulysses acontece as seguintes ações (fundamental reforçar que este é o tipo de livro que não importa muito as ações, mas sim como elas são contadas; ou seja é uma obra muito mais de linguagem do que de enredo - certo, podemos discutir em teses e mais teses o que é linguagem e o que é enredo, mas acho que isso ilumina um pouco a estrada de letrinhas que percorremos. mas então por que, por São Patrício, tu vai me falar do enredo se ele pouco importa? seilá, imaginei que um GUIA DE LEITURA [coff, coff] como este precisaria conter as ações que criam a cena e... ah, me deixa!):

- Buck Mulligan, um amigo picareta de Stephen Dedalus, sobe no parapeito de uma torre com um pote cheio de espuma de barbear, um espelho e uma navalha. ele e Dedalus passam algum tempo ali, olhando para a baía, enquanto o falastrão do Mulligan... bem, fala muito, e Stephen Dedalus, o mala, fica ali sofrendo as dores do mundo. Dedalus se dá por ofendido por algo que Mulligan disse-lhe um tempo atrás. comentam sobre um inglês, Haynes, que está com eles na torre (que á alugada).

- Descem, uma fritura enche a cozinha de fumaça, conversam, chega a velha que vende leite, eles comprarm e ficam devendo um tanto.

- Mulligan descobre que Dedalus vai receber hoje e pede-lhe dinheiro emprestado para beber.

- vão para um pequeno lago nadar. não. Mulligan nada enquanto Haynes tenta conversar com Dedalus, que é um blasé do cão e lhe dá pouca atenção.

- Dedalus, em diversos momentos da narrativa, é atormentado pela lembrança da mãe recém-falecida e por um cavalar sentimento de culpa de não ter orado com ela em seu leito de morte.

- Mulligan conta pra Haynes que Dedalus consegue provar ALGEBRICAMENTE que o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare, mas Dedalus, o maleta, se recusa a dar mais informações.

- Dedalus é atormentado pela ideia de estar sendo picaretado por Mulligan. a última palavra do capítulo é "Usurpador."

- o capítulo termina com Dedalus se afastando para ir à escola onde leciona história, e combina de se encontrar com haynes e Mulligan 12h30 para almoço.

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Stephen Dedalus é o personagem principal de outro livro de Joyce, Um retrato do artista quando jovem, e os três primeiros capítulos de Ulysses o tem como protagonista. Boatos fortes dão conta de que ele é um alter ego do próprio James Joyce.

de acordo com as anotações de Joyce, essa cena se passa às 8h da manhã, e há muitas referências à branco e dourado e à teologia, mas não são discussões tão diretas quanto na Montanha Mágica, por exemplo. a cena é narrada ininterruptamente (só pára com as entradas dos pensamentos dos personagens).

quem sou eu pra falar isso, mas acho um capítulo ruim para começar o maior roamnce do século XX. Afinal, Dedalus é uma criatura soturna e chata, sem o charme literário dos deprimidos e sem a boa vontade dos personagens felizes. Ressalte-se, porém, que essa concepção do personagem está afinada com o livro, mas não é de se admirar que tanta gente desista do livro antes de matar os três capítulos com o Stephen "nuvem negra" Dedalus.

pincei uma frase notável do texto - pelo menos eu acho: "– Você contempla em mim, Stephen disse com amargo desprazer, um horrendo exemplo de livre pensar."

das palavras estranhas citadas:

- Thalata! Thalata!, quer dizer O mar! O mar! teria sido dito por guerreiros gregos quando achavam que nunca voltariam para casa e veem as águas.

- omphalos é o nome que Mulligan dá a torre que vivem. a palavra significa umbigo, mas também é usada para nomear artefatos religiosos de pedra.

- introibo ad altare dei é latim (entrarei no altar de Deus), é o começo da missa católica.

- Chrysostomos quer dizer "dente de ouro".

- Epi oinopa ponton = sobre o mar cor de vinho escuro.

- Liliata rutilantium te confessorum turma circumdet: iubilantium te virginum chorus excipiat - latim, oração para moribundos. algo como "Que a multidão de exultantes confessores adornados de lírios teenvolva; que o coro de virgens jubilosas te dêem as boas vindas".

- Zut! nom de dieu! - é uma imprecaução tipo Desgraça!, Bolas! (hehehehe), Que merda...

- et unam sanctam catholicam et apostolicam ecclesiam = E uma igreja sagrada, católica e apostólica.

na próxima postagem, as relações que achei entre o primeiro capítulo, chamado de Telêmaco, e a Odisseia.

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segunda-feira, maio 21, 2012

Leiturossia do Ulysses: introdução

todos os comentários que farei da minha leitura do Ulysses são da edição da Penguin - Companhia.

os comparativos com a Odisseia de Homero serão feitos em postagens à parte, porque acredito que haja muito valor no próprio texto joyceano, relegado por conta da fascinação dos paralelos que ele constrói com outras obras.

e veja que sou um entusiasta dessas estruturas intertextuais explícitas, mas me parece que esse jogo do Ulysses mais tem afastado leitores normais que atraído pervertidos com taras por formas e estrturas narrativas tipo eu. dada essa condição, separo minhas impressões.

(sem falar que isso me dará tempo de ler a Odisseia ao mesmo tempo - não AO MESMO TEMPO, mas uma no intervalo da outra - com todo o respeiro, claro -, interrompendo as leituras e... entendeu, né?)

a Odisseia que releio também é da Penguin-Companhia e não, não estou sendo patrocinado por eles.

acredito que a leitura da introdução do Ulysses é bastante valiosa, assim como a nota do tradutor.

a introdução traz uma discussão muito interessante sobre Leopold Bloom (o protagonista) como um modelo de andrógino. nada contra os machos jurubebas, mas a noção seria de um homem que se bate menos com o machismo, capaz de relações mais femininas no sentido arquetípico mesmo do termo.

da nota do tradutor pinço algo fundamental para a leitura: o livro é divertido e engraçado, não sério e para poucos escolhidos. existe um problema com o primeiro capítulo (ou com os 3 primeiros capítulos), mas comento a razão dessa minha desconfiança na postagem adequada, coisa que se a musa de Homero permitir, será amanhã.

alguma ajuda da internet: o Ulysses em inglêsum resumão para principiantes, o Ulysses adaptado para HQ e um dos diversos sites com bastante informação sobre a obra.

e para quem diz que não consegue ler o livro, não importa o que faça, vai aqui um audiolivro do Ulysses, em inglês:

 

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