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terça-feira, março 12, 2013

O menino que salta pra alcançar o galho da árvore

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esperava pra atravessar a rua hoje quando vi um menino.

era menino assim, vestido bem de criança.

eu ouvia Yo La Tengo e ele corria ma non troppo com uma lista e (vamos afirmar, mesmo sem certeza - vamos? nós quem?) uma nota de dinheiro na outra mão.

ele correu pela faixa de pedestres sem tocar nenhuma vez no asfalto negro, pondo os pés só na parte branca da zebra. já na praça, porção de concreto cercada por carros de todos os lados, combatia Dom Quixotes e lutava contra sua altura, pulando pra tocar galhos de árvores.

meio corria, meio saltava.

não conseguiu.

parecia faceiro.

eu atravessei a faixa, hipnotizado pelo rastro daqueles movimentos. enquanto ouvia loose no more time, cause it's been fun e pisava em todas as faixas, numa proustada, quem corria lá era eu, a cidade era Francisco Beltrão, o sol era o mesmo, o jeito de correr era o mesmo e o entusiasmo com vida era o mesmo.

 eu já fui ele. ou melhor, ele já foi eu. e eu também não conseguia alcançar o galho alto que me daria o título mundial de salto em árvore.

só uma vez ou outra.

ele desapareceu em sua correria pra bater a lista, atender a mãe e voltar pra ver seus desenhos  na TV, enquanto escolhe as cores dos personagens que inventou ontem, esparramado no chão de madeira da sala.

atravesso a rua e, sem saltar, estapeio leve uma folha em um galho.

é uma pena que ele não tenha fones. e que eu não tivesse.

na última tentativa antes de sumir do dia, ele alcançou o galho.

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segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Ver Tarantino no cinema

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eu me sinto obrigado a ver Tarantino no cinema.

obrigado por um piá de 15 anos. sorte do menino que não tenho nenhum problema em assistir os filmes do Tarantino. eu gosto muito, mas ele já deixou de ser meu cineasta favorito há algum tempo.

assisti a todos que pude no cinema, ou seja, de Kill Bill - Volume 1, pra cá.

mas minha principal satisfação de ver Django Livre no cinema tem menos a ver com a direção, os diálogos e a fotografia, do que já teve. tem mais a ver comigo e com o menino adolescente.

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(que todo mundo deve ter sacado que sou eu mesmo, porque sou meio ruim de guardar segredos. é o Lielson de agora fazendo o que Lielson de Francisco Beltrão, sem cinema e sem vídeo-cassete não podia fazer)

em outra circunstância, seria só uma vingança besta contra o mundo, um grito desgraçado perdido numa escada abaixo. mas como é de mim que eu falo, é de um eu ligado a um outro-eu por uma espichada de tempo, é um prêmio dado a tempo (e fora do tempo): eu levo aquele adolescente a ver o seu cineasta favorito no cinema, a encarar em uma grande tela alguém que o influencia e o influenciará.

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sem ter de torcer pra chegar na locadora de vídeo o VHS, e aí organizar uma noite de filmes e SuperNES com o amigo pra ver o filme, decorar diálogos, rever e comer pão com bife. é legal também, mas o que sobra dum lado, falta de outro.

cercado por desconhecidos, estou só no cinema. eu que sou dois (pelo menos dois), encarando as luzes de Tarantino. sorrio nervoso, meu estômago afunda em si mesmo e me sinto bem em ser essa audiência. obrigado, Taranta. bom filme pra todos nós.

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sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A cidade Zumbi

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Foto de Daniel Castellano, para a Gazeta do Povo

eu gosto de Curitiba. vivi mais de uma década lá, tomei café na XV, passei frio na reitoria da UFPR, vi os primeiros shows do ruído/mm, vi o Trevisan andando em círculos na Santos Andrade, e - o que eu mais gostava - caminhei bastante por toda a cidade.

meus pés e as ruas de Curitiba tem um bruta dum affair interrompido, mas nunca apagado ou resolvido.

por isso e pelos amigos e parentes, volto pra lá vez por outra. tipo no Carnaval. Afinal, são poucos os lugares com um carnaval tão inofensivo quanto o de Curitiba - defendo até a institucionalização do não-carnaval curitibano -- sim, com hífen, tamanha sua negação.

e nesse saudável carnaval, a cidade virou zumbi.

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não tô lembrando só da divertida zombie walk, que talvez seja a melhor ideia de brincadeira coletiva para adultos (sem ideologia marcada) já inventada. é uma evolução do flashmob. ou um fashmobão.

aliás, tô pensando sim nas fantasias zumbizentas na rua, mas não só.

Curitiba toda virou zumbi.

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(a foto não é de Curitiba. coloquei ela só pelo impacto visual)

além dos eventos desmortos do carnaval, e do jargão de que os usuários de crack parecem zumbis, trôpegos, enrolados em farrapos, feridos, fedidos e delirantes que tomam as ruas como se vivessem uma Zombie Walk em sua half-life, há ainda um ar de morto por todos os lugares.

acompanha comigo: ninguém nas ruas, lojas fechadas, shoppings lotados, aquela nevoazinha e é claro, o cenário de guerra que recebe o viajante na rodoviária da cidade.

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torço pelo clichê, mas não me encontro com as bolas de feno rolando pela rua.

é engraçado: um texto sobre uma cidade que encontrei meio-morta, num blog que tem dificuldades de se manter vivo se contrasta com um lugar que lembra muito da minha vida.

não, não é engraçado. até sorrio, mas não sei o que é. engraçado, não.

na minha cabeça, tudo está disponível: os cafés, as livrarias, a Biblioteca Pública, a universidade, o rumo da minha (ex) casa no Alto da XV.

Aqui Curitiba vive.

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sexta-feira, maio 18, 2012

A leiturosseia

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Sei que meu primeiro encontro com o Ulisses de James Joyce, foi na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

o livro tava na lista do Cristovão Tezza como uma das opções para uma apresentação de sua disciplina. eu não fazia a matéria na época - eu não fazia nem Letras na época - mas tinha a lista e a intenção de completá-la.

eu era só um magrão do interior do Paraná que fazia comunicação, gostava muito de ler e morava numa pensão com entusiastas da primeira onda do sertanejo universitário. nesse ano, li mais de 100 livros (sim, eu anotava - ah, as ingênuas e não menos belas flores da juventude...).

mas e o Ulisses?

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sim, o Ulisses. flertei, cheguei junto e levei o livro pra pensão. achei estranho e pouco amigável, apesar de formas sobranceiras e fornidas (tradução do Antonio Houaiss). não consegui terminar.

cheguei até a quarta fase do livro, mas acabou meu continue na bilioteca e tomei um gameover do prazo. deixei pra lá.

na verdade, deixei nada! já tinho lido O retrato do artista quando jovem, aí li Dublinenses, biografias, material teórico. foi a primeira vez que li material em inglês também: li Giacomo Joyce e uns poemas em inglês do irlandês. e Stephen Hero também.

a obsessão estava instaurada. aí, surgiu Luís Bueno (que orientaria meu mestrado anos depois) e sua disciplina para a leitura do Ulisses.

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comprei num sebo a única tradução disponível (mas não única edição) em 2001 e fui pra aula do señor Bueno (a compra do livro foi uma odisseia prum estudante de bolso curto que nem eu, mas para histórias de gente sem dinheiro recomendo Os ratos, do Dyonélio Machado).

e nesse ano foi a primeira vez que li o Ulisses. foi legal, mas eu ainda tava obcecado e precisava ler de novo. mas na tradução do Houaiss seria muita dor e sofrimento (drama queen).

anos depois eu soube que a tradução da Bernardina eu ia sair. eu já era um digno estudante de Letras na época.

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soube daí que um cara que pirava no Joyce tava traduzindo o Ulisses pro seu doutorado. Era o Caetano Galindo. já tinha tido aulas com ele e conversávamos sobre Radiohead, Oasis e Joyce nos corredores da UFPR. pedi que me deixasse ler o seu trabalho.

na época, desempregadao e com muita obsessão, li os 4 primeiros capítulos do Ulisses, de novo. mas dessa vez, cotejado com o original em inglês e com a tradução do Houaiss. e como a do Caetano era melhor.

(essa leitura aí me levou pra página de agardecimentos da edição do Ulysses do Galindo. deveras gentil, esse moço)

mas a edição da Bernadrirna saiu antes. comprei e li. dessa vez, li numas férias em Francisco Beltrão. gostei de novo, mas senti que faltava um pouco da engenhosidade joyceana que eu tinha provado no texto em inglês e na tradução do Galindo. como se o Houaiss tivesse apertado demais o parafuso do rebuscado e esquecido da diversão e a Bernardina fez o versa desse vice.

quando eu soube que o Caetano tinha acabado de traduzir e que ia sair pela Cia. das Letras, fiquei bem feliz. primeiro, porque eu pdoeria indicar uma versão decente do livro pras pessoas. depois porque eu poderia ler o Ulisses de novo!

(o Caetano me disse numa aula que somos sempre macaquinhos egoístas, que usamos o discurso pra se dar bem - esse é mais um exemplo).

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domingo passado comprei o Ulysses, descobri que eu era citado num dos meus livros favoritos e comecei a empreender a leitura da bagaça. e hoje resolvi fazer um diário de leitura aqui no blogue. esse é só o texto de abertura, minhas impressões estão nas postagens adiante.

não se entra num labirinto de palavras destes sem linhas inteiras e frases ocasionais sublinhadas à lápis.nos encontramos lá no último 'Sim'.

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sexta-feira, dezembro 02, 2011

Instrumentos de dispersão

se me lembro bem, esquecer é parte fundamental.

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não dá pensar que vai morrer enquanto você come bolacha com chá morno, é preciso esquecer a doença de sua mãe enquanto brinca no YouTube.

Espanamos o que se-foi do presente. mas logo a frente, o mesmo pó continua ali, a recobrir sua bolsa, seus livros e as beiradas das portas que deixa de abrir em seu apartamento.

o meu fugir de mim é pré-instalado de nascença.

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não, acho que o dispersar do urgente que é.

mas gosto de encher a mão com os grãos do importante.

(tem uma diferença Gonçalo-tavaresiana entre urgente e importante).

ou talvez só esteja tentando esquecer algo que deveria lembrar. ou isso é um apartamento fragmentado se reconciliando.

mas me lembrei de gostar disto:

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terça-feira, maio 17, 2011

Hoje não

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tinha uma brincadeira uma tortura consentida entre os piás de Francisco Beltrão que se chamava "tratar verdura".

(nunca descriptografei essa)

a regra era mais clara que o Arnaldo: ao ver a outra parte tratada, você deveria dizer 'hoje não'. aquele que não disse 'hoje não', tomaria murros e pontapés até que dissesse a frase código.

por que as crtianças, todas do sexo masculino, participavam dessa ludicidade espartana?

não sei, nunca entendi também.

nem quando tinha idade pra 'tratar verdura'.

mas me deu uma vontade de dizer "hoje não" bem na cara do marasmo e metre-lhe um socão no braço!

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terça-feira, maio 03, 2011

Luto para um amigo

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cercado pelo casamento real de um lado e pela morte (insira sua dúvida conspiratória favorita sobre isso aqui) de Osama Bin Laden, se centra o mais importante - na verdade, pior - acontecimento do final de semana: a morte do escritor e pintor argentino Ernesto Sábato.

não precisa se sentir estúpido ou, pior, fingir que conhece o mestre gringo. pouco falado no Brasil e obscurecido pelos magistrais Cortázar, Bioy Casares e Borges, Sábato chama pouca atenção no meio literário daqui.

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mas essa injusta atenção pequena, é em nada desprezível. a Compania das Letras tem tudo (ou quase) do hombre em sua linha editorial.

o sempre foda Zé Castello escreveu sobre ele. leia.

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eu fui amigo de Sábato.

não, nunca o encontrei, nunca apertei sua mão e passei pelos segundos sem saber o que falar pra um ser humanao que (a mim) é (ainda É) tão admirável. nunca escrevi cartas pra ele ou e-mails (que eu duvido que ele tivesse). mas ele me conhecia muito bem. e eu a ele.

fomos amigos, e nossas conversas, urdidas pelo Túnel, Sobre heróis e tumbas, Homens e engrenagens e tantas outras palabras, apesar de iguais, cometem novidade. sempre.

ele me falava sobre o cientificismo e do racionalismo dogmático, que segundo ele, são a pinoia desse pampa desumanizador.

quando o conheci, em meio de um capítulo de Homens e engrenagens, no primeiro ano de faculdade, eu entendi alguma coisa. até hoje, não estou bem certo o quê, mas entendi. nessa época, Sábato já tinha abandonado a ficção e praticamente parado de escrever. apenas pintava, em sua casa em um lugar chamado Santos Lugares.

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pintava, até que esses olhos, perenes apontadores pro mundo, cansaram. e, nas armadilhas do idioma, no sábado passado, Ernesto Sábato morreu.

eu já tinha sentido que perdia um tio distante quando José Saramago morreu (não se fica impune a ler tanto o escrito de alguém), mas com o Sábato quem se vai é um tio querido, que nunca vi e nem verei, mas que encontrei mais vezes do que a mim mesmo.

como ele mesmo me disse, quando explicava porque a humanidade não se arrebata por uma onda suicida quando compreende sua mortalidade e vacuidade do viver:

"Que valor existiria se trabalhássemos e vivêssemos entusiasmados se soubéssemos que nos espera a eternidade? O maravilhoso é que o façamos apesar de nossa razão nos desiludir permanentemente. Como é digno de maravilhamento que as sinfonias, os quadros, as teorias, não sejam feitos por homens perfeitos, mas por pobres de seres de carne e osso." (Homens e engrenagens, p. 129, Papirus, 1993)

vou continuar a conversar com Sábato. eu me vou um dia, e ele vai continuar a ser ouvido. quem sabe eu mesmo continue a ouvir...

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terça-feira, abril 26, 2011

Em Buenos Aires – de cima

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entre milhas acumuladas e horários de feriado, nos obrigamos a comprar passagens da Pluna, do Uruguai. o trajeto é Curitiba – Montevidéu – Buenos Aires.

a Pluna não paga lanche pra ninguém e cobra (bem) por ele e, fechando o momento Classe Média Sofre, ainda cobra 30 doletas por mala que você trouxer de volta da Argentina – sim, só na volta, depois de você gastar todo seus pesos em alfajores, doce de leite e artigos de couro.

quando voei pela primeira vez (de verdade, nunca sonhei que voava) foi pra Buenos Aires, fugíamos de um carnaval.

o avião chegou à noite, e pela janela eu vi um Mondrian que se mexia.

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é bobo, eu sei.

sou bobo, sei.

mas e daí?

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gosto de olhar pro Mondrian e sentir que estou voando.

mas é só tinta e linhas coloridas.

não, não é.

é Buenos Aires vista da janela do avião.

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segunda-feira, abril 25, 2011

Em Buenos Aires - quarto de hotel

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tudo aconteceu umas 30 horas antes da partida.

por razões desconhecidas, a Van resolveu ver opiniões sobre o hostel que íamos ficar.

é...

os antigos hóspedes do lugar oscilavam seus coemntários entre sujo, podre e mal-cuidado.

o que parecia ser uma viagem muito foda, começa a foder pelo lado errado.

em toques de caracteres de desesperados, encontramos uma lista de 100 hotéis em Buenos Aires. arriscamos um deles.

Atlas Tower.

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ela gosta da figura de Atlas; eu gosto de jogar com torres no xadrez. pedimos uma reserva, com toda a esperança de trabalho escolar de última hora e

logramos!

conseguimos uma vaga, num hotel limpo, na avenida Corrientes com a Callao, próximo à três das principais comiquerias argentinas. se configurava minha nerd trip particular.

apesar desse êxito epopeico, da sensacional companhia e do bom tratamento dos funcionários, eu não pude - e olha que tentei - deixar de me lembrar de 1999, quando saí de Francisco Beltrão e fui até Erechim fazer um treinamento da RGE (empresa de eletricidade do RS) e morei 40 dias em um hotel, durante um treinamento para o cargo de Eletricista I.

sim, eu já estive no lugar deste cara, mas sem a escada.

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tentava subir em postes, me fixar lá em cima, me desfixar e descer, pra começar tudo de novo, até que meu subconsciente me fazer errar o pé do poste, cair uns 9 metros de altura, machucar os joelhos e me convencer a desistir daquilo.

a mim, me é difícil capitular. sou teimoso, e sempre acho que consigo um pouco mais.

na época, quando desci do ônibus de volta da odisseia gaúcha, me senti totalmente derrotado.

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passado algum tempo, entendi que isso foi necessário pra que eu entendesse na carne que existem coisas que 'não'.

es outras que 'talvez'.

o acerto salarial virou a inscrição no vestibular de Publicidade da UFPR e um curso superintensivo de 1 mês.

entrei na universidade em 2000, mas, às vezes, me sinto caindo de um poste e batendo os joelhos.

não aconteceu no quarto do hotel Atlas Tower.

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segunda-feira, abril 18, 2011

Rituais

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antropologicamente falando, os rituais (devem ser) são outro tipo de coisa.

lielsonicamente falando, ritual já foi ler As flores do mal todo ano.

já tive como ritual também sempre ouvir o Ok Computer em viagem.

(minha mente perturbada acredita que é melhor estar ouvindo algo que eu ame de verdade se um acidente rodoviário/aéreo acontecer e não puder ouvir mais nada).

já andei com caderninho de ideias no bolso (na verdade, isso é mais uma esquisitice - que mantenho) e com mini Aurélio na mochila.

hoje, tenho dois rituais: um é não sair de casa sem algo pra ler ou sem fones pra ouvir, quando não, ambos; o outro é ouvir Velvet Underground enquanto me barbeio.

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por que Velvet? por que no barbear?

não sei.

Sigur Rós até foi legal, Caléxico rendeu, Beta Band chegou perto, mas o meu Barbeiro de Sevilha se apresenta com outras notas.

 

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quarta-feira, abril 13, 2011

Vá ao teatro (só não me convide)

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eu lembro de uma camiseta que era vendida na Chiclete com Banana (eu acho) que tinha a inscrição do título deste texto.

não tinha nada contra teatro, mas achei divertida a piada.

(perca a noção, mas não perca a piada,  é o que acho).

entrei em Comunicação Social em 2000, e lá, por razões desconhecidas, as pessoas não gostavam de teatro, gostavam de cinema.

aliás, cinema é a arte que todo mundo que faz comunicação se acha gabaritado pra dar opiniões embasadas e escolher um ícone indiscutível da história da nona arte pra discutir.

eu, mais quebrado que o joelho do Ronaldo, também não ia ao teatro. mas nunca tive nada contra, nem entendia a razão de se opor.

desde que eu consigo pagar pelos ingressos, tenho ido ao teatro.

nesse Festival de Curitiba recém passado, vi 4 peças e gostei da maioria.

acho estúpido invalidar toda uma arte, ainda mais um gene dominante como o teatro, que está no DNA de todas as narrativas.

se o cinema tem o corte e o enquadramento, o teatro tem a presença e a força humana.

se você tem preconceito, vá assistir uma peça boa.

não julgue toda a literatura pelo Sabrina do mês.

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nem o teatro pelas comédias bocós com apelo sexual e nomes de bairros de Curitiba.

mas se você for ver uma peça que tenha interação com o público, aí sim: vá, mas não me convide.

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quarta-feira, março 30, 2011

Eu e a música [edição comemorativa]

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depois de tantas horas com as fitas, era exigido que eu destapasse as orelhas e ouvisse.

creio piamente em músicas, álbuns e bandas para fones, mas minhas convicções se expandiam.

eu podia experimentar as malditas senoides rítmicas em tempo real; eu podia ver (ouvir) shows.

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vi diversas bandas de Curitiba (muitas delas foram pra um mundo melhor - a memória), porque dividia apartamento - na época - com o Túlio, que - na época - era do ramo.

mais uma vez gostaria de dizer a favor da narrativa e apostar em histórias de bebedeira e mulheres bem rock'n'roll, mas não é a verdade. eu era só um ouvinte entusiasmado incapaz de romper o perímetro que separa banda e público.

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(embora uma vez tenha escrito uma letra, que o Túlio tocou e errou - sem mágoas)

eu não danço. não gosto (talvez porque não sei) e não sei (talvez porque não goste) de dançar.

se o faço, pareço o Thom Yorke, só um pouco menos torto.

eu fico parado, curtindo, longueando, saboreando aquilo tudo.

(escrevi um pouco sobre isso em um outro blog, de um show do ruido/mm)

eu saio dali, mas já volto. é um pouco de instinto em uma selva de razão.

eu entendo no cálcio o sentido de phew, for a minute there, i lost myself.

 

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terça-feira, março 22, 2011

[+] eu e a música

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2000: esse é o ano que saí do meu quarto em Francisco Beltrão pra sala de aula universitária em Curitiba.

e, às vezes, pro meu quarto de pensão.

(seria glamuroso eu poder me pintar de anti-herói e inverter a setença, dizendo ter passado mais tempo no quarto da pensão - que seria suja e violenta - e menos na sala de aula, mas não seria verdade, tampouco meu desejo. e não, a pensão não era ruim, só era desinteressante.)

depois de passar em Publicidade, eu precisava viver em Curitiba. pra isso precisava de abrigo (pensão), alimentação (pensão + Restaurante Universitário), livros (biblioteca + xerox) e música.

equacionemos o problema:

pensão = quarto de pensão

quarto de pensão = eu + 3 indivíduos. logo, quarto de pensão diferente de som ambiente.

pelo teorema de Pavel, a solução é 2 X (fone de ouvido).

ou seja, em 2000 música + pensão = walkman.

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(não era tão pequeno, mas na época era a ideia de portátil)

após equacionado, o produto da solução era um walkman + 30 CDs.

foi preciso converter isso em momentos de 30 + 30 minutos - embora as fitas da BULK permitissem quase 33 de cada lado.

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gravei toda a Legião Urbana em fita.

Todo o Rage Against The Machine e todo o Radiohead.

e eu fazia o máximo de música cabver no mínimo de fita magnética.

(uma fita pródiga tinha metade do Evil empire no A e Cazuza ao vivo no B)

horas criando coletâneas improváveis e inadmissíveis até resolver fazer listas e fitas para alguéns.

a pequena caixa de música da Aiwa se alimentava de baterias AA e alimentava meus almoços e trechos, alimentava minha resistência as 'mais pedidas da pensão' e minhas leituras.

(ah, eu levava a literatura tão a sério naquela época)

eu ia com quilômetros de fita no meu bolso e uma trilha sonora à pilha na vida.

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quinta-feira, março 17, 2011

Mais eu e a músicas

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folheando as fitas, encontrei gravações telefônicas de meu primo para "brotos" e músicas estranhas.

larguei tudo lá.

na verdade, não. peguei as fitas de galanteio, levei na casa dos meus amigos de camiseta preta e gravei Pavilhão 9, Racionais MCs, Legião Urbana, Bob Marley e Ramones.

na mesma fita. se bobear, do mesmo lado A.

na sala, um amigo me emprestou fitas do NoFX e do Rappa.

as pessoas trocando CDs e eu com fitas de bandas que sequer gosto. era uma anacrônico.

(lembro de puxar uma fita da mochila pra responder à pergunta na ficha do CEFET: qual seu estilo musical favorito?)

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(anos depois eu gravaria fitas pras pessoas, e então leria o Alta fidelidade e veria que aquilo fazia sentido pra mais gente. tentei gravar CDs, mas nunca funcionou comigo...)

a virada foi uma coletânea.

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por dentro, Queen. Bycicle Race, Bohemian Rhapsody, We Will Rock You, Crazy Little Thing Called Love, Fat Bottomed Girls.

e essa fita se desenrolou em amizades musicais, que me levou a mais fitas e mais músicas.

essa fita, em autoreverse, continua. apagada e regravada.

(quando precisei me mudar pra Curitiba, essa fita do Queen sobreviveu. mais tarde ela virou o Led Zeppelin IV)

em 1998, com 18 anos e com meu salário de estagiário, comprei um aparelho de som pra 3 CDS - o primeiro, e até hoje, único da casa de meus pais.

foi o fim do pensamento dicotômico A e B.

por enquanto.

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quarta-feira, março 16, 2011

Eu e a música

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(quantas postagens dessas últimas tem um estrondoso EU no título? mea culpa - e de novo EU)

na minha casa em Francisco Beltrão não tinha música.

meu pai e minha mãe não são músicos, não cantam em coral da igreja e não são fãs de ninguém.

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mentira. a nostalgia do meu pai é fãzoca do rei e do tremendão.

mas as necessidades financeiras, tanto as reais quanto as temidas, fizeram de meu pai um homem sem extravagências. e sem se permitir.

e os filhos herdam.

herdei uma casa com som baixo de TV e de nenhuma melodia. hoje me atravanco no ritmo da poesia, no compasso da dança e na eufonia da vida.

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minha prima tinha um toca-discos, mas ela levou embora quando não morou mais com a gente. tudo bem, eu não tinha discos.

lembro de ligar pra rádio todos os dias - três vezes - de uma semana pra pedir uma música que gostei.

meus amigos da sétima série (e depois da oitava) vestiam camisetas pretas e falavam sobre bandas; eu ainda salvava o mundo toda a tarde lá em casa.

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até que um dia herdei do meu primo revistas de eletrônica e caixas e mais caixas de fitas K7. mas isso é grande e fica pra amanhã.

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terça-feira, fevereiro 01, 2011

Epistaxe

achei uma palavra no dicionário que eu precisava mostrar.

não sabia de que modo poderia falar dela e resolvi botar ela lé em cima, em destaque, como título e que vai virar o linque da postagem.

pensei em usar de título e me deixar levar pelo que tipo de texto poderia surgir dali.

pensei em simplesmente postar como entrada de dicionário mesmo, com uma imagem batuta, mas me pareceu meio sem graça.

comecei e apaguei um texto em que falava que gostei de epistaxe (lê-se "epistáquesse") porque essa simples palavra no meio de uma listagem tinha me mandando na carroceria da memória lá pra Francisco Beltrão, pra ver a mim mesmo, ossudo e apavorado.

pensei que eu ia acabar fazendo paralelos com Proust e Eisner e ai ser clichê. sem falar de que acabaria me acoitadando.

resolvi que não faria nada disso, mas que faria qualquer outra coisa (até mesmo contra os planos abandonados de escrita), só pra usar epistaxe pelo menos três vezes no texto.

só porque me lembrou de mim. e me lembrou dele:

e dele

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quarta-feira, dezembro 23, 2009

A bolsa de maria estourou?

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Papai Noel existe. À modinha de Mario de Andrade, fundo o manifesto provocativo, cuja a função é contestar o rodriguiano óbvio que ulula(lá),  o encerro nesse ponto final.

Aliás, Papai Noel existia. vou te contar o que se passou só lembrei desse história depois que vi:

O dia era 23 de dezembro e levantei pra tomar água. eu morava em Francisco Beltrão ainda. era umas 3 da manhã. na verdade, eu não sei dizer, porque eu não tinha relógio na época.

percebi que Bob e Lucy (os felinos) não dormiam em seu cobertor azul, mas e daí? os gatos são animais existencialistas! ao entrar na cozinha, ele tava lá, coçando a barba:

- entra aí, moleque. calor da porra nesse Brasil, hein? caralho...

- papai Noel?

- papai, não! vai ver se tenho filho que nem você. francamente.

enquanto falava, ele girava a toca na mão e bebia em uma caneca. 

- o que tu faz aqui? perguntei, enquanto ele tirava o casaco. por baixo ele usava uma camisa da seleção do Sápmi.

- então, pensei em adiantar um pouco do serviço e já entregar, mas daí olhei pra vodka, ela olhou pra mim, sabe como é... eu entendi porque ele tem a cara tão redonda. ele continuou:

- sabe, os sindicatos místicos são muito complicados: pedi pra sair. tô cansado. me ofereceram vaga de espírito de natal! falei: justo eu que sou tão cético, virar um espírito, é demais, né? acabou que não vou nem fazer esse natal. acabou papai noel. sou só Noel agora. tava pensando em virar compositor. Noel Rubro, sacou?

eu não saquei. na época não. ele se levantou, pôs a luva e bateu no meu ombro:

- falou, guri.

- feliz natal, Noel. 

 

soube, anos mais tarde que o Noel trabalha em programas infantis, respondendo cartas e e-mails do público. sei lá se é verdade.

 

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quinta-feira, outubro 29, 2009

Minividas




quando criança eu não tive videogame (internamento em casa), nem bicicleta (externamento na rua); e o pior, sempre fui ruim de bola.

portanto, eu anêmico e algo autista me divertia com gibi e bonequinhos: os gibis me acompanham até hoje, embora tenham virado coisa de intelectual de lá pra cá - se chama graphic novels agora.

Quanto aos bonequinhos, eles ficaram em caixas, em um forte apache desmontado, na minha mochila, e em posições estratégicas. havia um sábio general e um planejador brilhante entre eles. havia, entre eles, tudo.

seres sob meu controle em um mundo meu, onde eu não tinha anemia, jogar bola não importava e meus desenhos eram fantásticos. todos eles me apoiavam e se aventuravam: dos plásticos de faroeste e super-heróis paralisados que eram estátuas vivas, aos gigantes que eram os bonecos semiarticulados do Rambo e do He-Man, passando, claro, pelos Comandos em Ação em armaduras de papel alumínio e polegares quebrados.

Todos aqueles bonequinhos (action figures é coisa de colecionador), dentro da meu quarto, representavam momentos de batalhas épicas exterrnas dentro da minha cabeça. Volta ao mundo em 80 quartos. vivi muito mais ali do que até hoje. o Cronotopo é um bicho estranho, seu Bakhtin.

Hoje, pelo menos há 16 anos sem mexer neles, sinto falta. e eles, devem sentir ainda mais falta da vida que levavam: bem guardados, rodaram Francisco Beltrão inteira, conheceram Curitiba e as autoestradas. mas o perigo maior sempre esteve na parte de cima do armário.

e, sabe, eles revivem mais um pouco na minha cabeça de quando em quando.

eu ajeitava com durex um bonequinho que perdeu o braço; um cara fraco ganhava poderes por causa de um trapo ao redor do pescoço ou de um pedaço de papel alumínio e cola; os vilões e os heróis eram caras conhecidos, e se escondiam na caixa de sapatos no meio do quarto.

acho que estou sempre manipulando bonequinhos etéreos da minha cabeça: e eles são um belo time! se um erra, logo o outro chega de Turbo Submarino; um mundo caótico organizado por mim e sob meu controle.

e no final, até quando os vilões ganham, eu ficava feliz.

hoje, com bem menos graça, invento outras coisas na cabeça. eu não sei se elas são legais pros outros, mas eu quase me divirto tanto quanto antes. agora os bonequinhos dormem no temido armário e contam as velhas histórias. acho que as ouço às vezes.

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