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sexta-feira, outubro 05, 2012

Histórias que imaginei enquanto usava o transporte público de São Paulo # 3

(primeira versão)

OU A volta para casa de Ulisses

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ela, vestida de blusa de onça e jeans, atravessou a plataforma de mãos dadas com ele, que estava de tênis, calça larga e camiseta estampada.

ela, com seu salto médio, pisa firme nos olhares que a acompanham até a ponta da plataforma, onde existirão as últimas portas do trem, daqui a poucos minutos. ele, mal olha para ela. segue firme, apressando seu passo curto para não atrasar o conjunto, com olhar firme, pra frente.

ela para ao lado da última coluna, onde o teto da estação deixa de ser e o coloca a frente dela. ela olha pra baixo, mas ele não olha pra cima. ele vê um rapaz bebendo água pra apagar com antecedência o calor da superlotação. e é a partir da água, que tanto já se falou em dicionários de símbolo, que lhe fluiu a palavra, pequena como ele, mas inteira: - água! tem? - quer água? acho que não t... ela interrompe o texto e o raciocínio. a busca por aquilo que ela sabe não ter ocupa toda sua vida dentro da bolsa: não, não está ali. - água? ele insiste, sem acusar, só pedindo mesmo. - não tem, filho. quer o mamá? - não... ela passa a mão no cabelo dele e ele se senta. - filho, não senta no chão que tá sujo, tá? ele apoia as costas na pilastra, se equilibra e mantém-se de cócoras. quase levanta o pescoço até ela, mas prefere olhar paras as pernas que vem-e-vão. - … isso, é, assim pode, filho... ela coloca os óculos escuros, confere o relógio da estação, olha pra o celular, o guarda na bolsa, mas não sabe que horas são. vê um espaço no banco a alguns metros. ele, já em pé, a ronda. - senta lá, filho. eu te espero aqui. puxado (ou empurrado), ele vai e trepa no banco. balança as pernas. e olha pra mãe pela primeira vez. fica pouco no banco, como se o impulso que o levou até lá fosse um empréstimo a ser devolvido. corre de volta e novamente ronda as pernas da mãe.

ela leva a mão nos cabelos deles, que não a impede, nem a incentiva. - como foi na casa de seu pai? - … - ele fez bolo pro você? - não... - mas era seu aniversário, ele não... não tinha bolo? - tinha bolo de chocolate. confusa pela ilógica, mas divertida pela mesma razão, a mãe continua: - bolo de chocolate é bom. - é... - tava gostoso? - me dá o carro? ela volta a cavocar a bolsa até tirar um pequeno brinquedo vermelho. em uma exploração cinematográfica, poderia se usar um ponto de câmera em contraplongée, valorizando a inundação solar, aproximando lentamente da mão da mãe, garantido o foco no objeto envelopado pela luz natural, faiscando de vermelho. mas não, isso não aconteceu.

ele pegou o brinquedo e fez os seus personagens (que ainda emprestarei um dia) dirigirem um veículo em alta velocidade nas paredes de um edifício gigantesco. tudo é possível aos heróis. - ó! e mostra pra sua mãe uma epifania em plástico: além do milagre de dar vida a quem não existe, ele também é capaz de tirar as rodas do carrinho. admirada como aqueles que veem sua fé confirmada, sua mãe diz: - puxa, mas ele não é feito pra isso. cuidado pra não quebrar, tá? - tá... as rodas voltam ao seu lugar e toda a magia se converte em um trem que chega.

ela passa a mão na cabeça dele de novo, ajeita sua bolsa e o pega no colo. - o bolo era pra festa, não era pra mim. ele diz perto das bochechas da mãe. - ai, Ulisses... e ela ri como fazia tempo que não conseguia. Mãe e filho entram no trem e se sentam. o trem parte e eles navegam, juntos. marinheiros. Ulisses errará por 14 anos até encontrar sua esposa e livrar sua casa dos pretendentes.

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quarta-feira, setembro 26, 2012

Mais uma vez, na sala de cinema

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enquanto eu subia a escada rolante da estação consolação, eu praguejei contra a senhora, toda passeante, que não deixou a esquerda livre para os apressadinhos e atrasados. que não deixou a esquerda livre pra mim.

corri pelas calçadas augusta abaixo até chegar ao cinema, interrompi uma moça confusa, que queria comprar uns ingressos pra teatro e não sabia o que fazer, e peguei meu bilhete gratuito praquela sessão da mostra.

me apressei pela porta sem funcionário pra rasgar o ingresso, achei o meio da cortina preta, entrei, localizei a Van e me sentei.

entre dois ufas e goles d'água, desliguei o celular, e fui sugado imediatamente.

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eu saí daquela sala de cinema na rua Augusta, eu estava em um mundo de granulados, luzes e cores envelhecidas.

por 45 minutos, eu vivi dentro de Vestígio.

a singela e delicada história sobre os últimos fios de vida de Uno Kawase, avó que criou Naomi, a diretora do filme.

não há muito o que falar que não pareça piegas, por isso a Naomi fez um filme – que é emocional no melhor sentido da palavra. as imagens e a construção do filme é tão certeira que a avó/mãe de da Naomi se transforma.

Uno Kawase se torna a mãe de todos nós, que todos sabemos (sem querer pensar muito nisso) que enterraremos um dia. eu nunca estarei preparado pra isso que sei que vai acontecer. pra ver que saber e entender nem sempre se entendem.

é o caminho da vida que nos tornemos órfãos.

a beleza e a sutiliza dessa ameaça tão forte, cria uma rede frágil, que enrola todo o expectador. e o expectador se vê em Uno. é certeza da vida que assim que nossos pais morrem, que sejamos os próximos.

a dicotomia dessa vidinha curta e sempre mal-aproveitada com o final certo assustam, apavoram e comovem.

se há filmes que fazem a experiência de cinema valer a pena, esse é um deles.

quando Naomi encerra o filme ("muito obrigada"), sou arremessado de volta na cadeira no meio de uma sala escura. Vanessa e eu nos pegamos pela mão e saímos dali.

eu sei que algo intenso aconteceu em mim, mas não sei se um dia serei capaz de entender.

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segunda-feira, janeiro 02, 2012

O lado Obladi-obladá

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a pior música dos Beatles.

embora, pra  mim, a suada de brega And I love her seja pior. mas partamos dum certo consenso beatlezento de que Ob-la-di ob-la-da é a pior música dos Beatles.

mas peraí: Ob-la-di ob-la-da não é exatamente ruim. é possível cantar junto, pular e ser feliz por 3 minutos e 8 segundos. claro, ela pode trazer bons momentos, mas nunca vai deixar de ser ob-la-di ob-la-da.

é tipo o seu amigo que come de boca aberta. não é legal, mas ele conta boas piadas de estética enquanto come. toda a filosofia vem envolta em feijão, arroz e alface. não esvazia as afirmações, pelo contrário, as preenche de grãos mastigados.

ou seja, é ruim, mas você se lembra de algo bom e se bobear já canta a música no ônibus davolta pra casa.

não há dúvida, ob-la-di ob-la-da tem seu garbo.

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mas continua ruim. é indissociável desta canção ser boa e ao mesmo tempo boba. e isso a torna a música mais humana dos Beatles.

nós temos isso: sabemos ser batutas e, exatamente por isso, somos também intratáveis e misteriosos vilões. nós somos obladi-obladazados.

carregamos em nós um afinado e harmônico lado obladi-obladá, que renegamos ao fundo de nós. é preciso entender essa letra, e decorar essa melodia, é preciso subir no palco e encarar a plateia.

eu nunca confrontei meu lado obladi-obladá, mas já assumo a diversão que ela proporciona. foi divertido cantar alto no meio do show do Macca ano passado: "laifi gouzon-bra-lalalalalaifi gouzon".

afinal, a vida segue e é preciso engrandecer o coro.

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quinta-feira, novembro 24, 2011

Pauliceia comentada

eis que estou em São Paulo.

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uma cidade que acumula vários maiores da América Latina.

não é meu caso, claro. não sou nem américo-latino direito, quanto mais O maior em qualquer ranking.

parei de crescer com 18 anos. não sou maior nem em relação a mim mesmo.

vivo improvisado, neste momento, na casa de um amigo gentil, enquanto tento desatar os nós káfkos da burocracia imobiliária brasileira.

Ao mesmo tempo, tenho um emprego daqueles que se pensa em estar na infância. mas se chega na idade adulta.

a mesma idade adulta das contas, imobiliárias, cartórios e trens.

(não há crianças nos trens - obviamente, elas estão na escola, mas isso me dá um cheiro de cidade sem crianças -- mesmo eu trabalhando em um 'puxa vida' infantil.)

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a cidade cresce mais que a sua gente, porque as gentes param de esticar, o seu limite biológico?

mas a cidade também tem seu pé métrico. nenhuma cidade vai além de seu mapa. embora cresça constantemente.

o crescimento vai além dos limites - é isso que ele é -- rompedor --, é uma semente implantada num pedaço longe da ciência e perto de mim.

e quando eu cresço, a cidade vai junto.

assim, eu faço de São Paulo um dos maiores devaneios da América Latina.

Phillip Glass - Metamorphosis I by Qld Con-Daniel Sullivan

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terça-feira, setembro 20, 2011

do que eu digo quando eu falo...

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sabe, eu acho que ele sempre esteve ali sentado. não, é claro que ele não passou a vida toda ali, é que me lembro do velho, de chapéu, sentado naquele banco, sempre do mesmo jeito. com chuva, sem chuva, tanto faz. sempre ali, naquele banco que já deve ter sido o centro da praça.

hoje, HOJE, é a primeira vez que o velho não tá ali...

é, sim, acho que ele pode ter morrido sim...

não, é bem tristeza, é mais uma coceira no meio da cabeça, como se algo não tivesse certo...

não, não é o velho ter sumido e eu não ver o cara li. não. é mais como se tivessem me feito de metáfora e eu não conseguisse entender.

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quinta-feira, agosto 11, 2011

Menos

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a foto é da livraria Ghignone, de Curitiba. ela está aqui pela cidade desde 1921. mas vai fechar.

amanhã, sábado e acabou.

enquanto isso, o mundo não "mind the gap" em Londres, e apesar de todos os saques, as livrarias foram poupadas das chamas da anarquia.

ou parece que é isso.

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aqui, a Ghignone faz queima de estoque e eu cumpro meu ritual de despedida comprando um par de livros.

um comércio fechar é motivo pra reclamação, pra tristeza, pra blogagem?

se não é, não sei como pode se chamar isto aqui e este por trás das teclas.

é só uma loja, mas fechou umas portas aqui também.

deixa, deve ser só eu começando a fechar minha Curitiba pra abrir casa nova.

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quarta-feira, maio 18, 2011

O rato está morto

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não teve jeito.

o veneno que joguei, o Senhor Rato estocava prum futuro suicídio.

a ratoeira, o mercado não tinha.

a única pessoa da casa que não treme à menção da palavra ratazana sou eu.

meus princípios éticos foram pelo ralo que o Senhor Rato usou pra chegar à minha casa.

encarei o animal frente a frente.

um duelo entre mamíferos.

não se fala mais em inteligência e artimanhas, apenas em velocidade, agilidade e força.

matei o Senhor Rato a pauladas.

foi triste.

principalmente pra ele.

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segunda-feira, maio 16, 2011

Ratiando

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eu entrei na cozinha e o rato também. ele tava ali, focinhando vida e eu parado, ainda meio paralizado.

é a primeira vez que eu duelava com um bicho desses.

(por ser pequeno, ele ganha bônus de armadura contra mim).

o rato optou por uma fuga veloz e rasteira para os quartos dos fundos da casa, que ocorreu entre "é, gosto do livro do Dyonélio" e "o Mickey é imensamente mais simpático".

cerquei o perímetro e sei em qual área está. resta agora pôr o rato pra roer grama pela raiz.

mas cada vez que planejo o assassinato do Senhor Rato, ouço o barulho de ossos pipocando.

às vezes, um gemido de vida em fio acompanha.

ele sangra, sabe?

somos ambos mamíferos, temos pelos.

temos ossos que estalam.

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optei por uma saída mais shakesperiana: o veneno.

me sinto mal por induzir o Senhor Rato a, em desespero famélico, comer a desvida.

mas é ele ou eu.

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que vença o primata.

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quinta-feira, maio 12, 2011

Eu fui demitido

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eu fui demitido.

ontem.

perdi o emprego. estou na rua da amargura. fui chutado. dispensado.

ou como se diz hoje no mundo RHquico: desligado da empresa.

me chamaram com mais 4 colegas pruma sala, engataram o papinho temos uma notícia triste pra vocês, vocês estão sendo desligados.

entregaram um papelzinho carente de assinatura em que, resumidamente, a empresa dizia que me dispensava e que tinha um motivo de enorme alegria em ter trabalhado comigo.

se a alegria fosse tão grande, me manteriam na firma só pelo ambiente feliz que proporciono com minha jovialidade. afinal, funcionários felizes são mais produtivos, até o Toyota sabe disso.

eu não me engano: bom, não foi. ser demitido é uma bosta. mas não é o fim do mundo também.

fim do mundo é te mandarem embora, e pedirem pra você responder um questionário demissional que começa com: "Qual a razão da sua demissão?"

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segunda-feira, março 07, 2011

Oh, abre alas!

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os jornais matutinos eram a comissão de frente da repetição sobre os desfilos das escolas de samba dos mais diversos topoi.

O que se pode depreender é que nada aconteceu no mundo durante final de semana diferente de samba no pé e bunda na tela. assim, interrompemos a folia e malemolência para tornar pública e notória a morte da informação não redudante televisiva brasileira.

EXTRA EXTRA EXTRA

denúncias anônimas dão conta de que passistas sambam satisfeitos no túmulo da informação.

voltaremos assim que tivermos novidades.

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quarta-feira, março 02, 2011

Eu, Cesare

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eu já passei por pedante diversas vezes.

algumas dessas foi por confirmar meu entusiasmo com o cinema expressionista alemão.

sempre gostei dos cenários pontudos, das histórias góticas, dos alto contraste entre luz e sombra.

eu meio que entendia (e entendo) o porquê daquilo tudo.

mas hoje eu mais que entendi, eu vivi: quando olhei no espelho, parecia um ator maquiado prestes a entrar no set do Wiene.

acho que preciso parar um pouco, ler  um gibi, ver um filme, sei lá...

 

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terça-feira, março 01, 2011

Por pouco

reunião setorial avança perigosamente para o horário de almoço.

a pirâmide de Maslow cobra sua taxa e o pagamento é em paciência e problemas de dicção.

todos olham pra ele. é agora.

que nem ele ensaiou, que nem ele viu no filme.

todos ali, a posição correta da cadeira, o sorriso correto. é agora.

"o que eu acho? acho que eu me demito disso. não me demito dessa empresa, me demito das reuniões, do horário vilão, do ônibus lotado, das vontades sufocadas, das planilhas do Excel, do bloqueio das ideias, da minha força gerar dividendos aos acionistas. demito a mim dessa vitae, desse curriculum, dessa porra aqui."

(bate na mesa, bate na mesa, vai, é agora! - todo mundo acha que surtou mesmo, aproveita: não há meio surto)

"estou fora dessa mediocridade, dessa lesa-vida. e todos vocês deveriam fazer isso também. pelo menos pensar em fazer, pelo se imaginar fazendo..."

é, quase. mas ainda não é o momento.

semana que vêm tem outra reunião e dessa não passa. fique tranquilo, ainda dá tempo de desentalar.

está cada vez mais perto. ou desentala ou morre afolegado.

mas, ao menos, conseguiu definir como é a parte em que bate na mesa.

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segunda-feira, fevereiro 28, 2011

O gato de Schrödinger pulou no meu colo. ou não.

comecei a ler hoje, no ônibus, o livro do Murakami.

foi paradoxal ler sobre um Havaí sem nuvens e ensolarado enquanto estava no em um ônibus lotado, lutando contra cotovelos e freiadas típicas de transporte de animais de abate.

(seriam os motoristas de ônibus enigmistas que advertem por ações metafóricas?)

em um trânsito congestionado, eu imobilizado pelo acúmulo humano, lendo sobre corrida.

corrida que não pude começar a fazer, por estar correndo demais. e enquanto eu não correr (porque estou corrido) eu posso começar - ou não - a correr todo dia.

tem borda recheada de cheddar nesa pizza (ou não)? até abrir, tem e não tem.

até eu não correr, eu posso e não posso correr. o cansaço até lá, é brinde.

 

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sexta-feira, janeiro 21, 2011

Reflexão pela faca

eu cortei minha mão com faca ontem. até que foi bom.

não sou alinhado a Sacher-Masoch ou genéricos. mas você vai entender.

eu amanheci com muita dor de cabeça.

tanto que pensei num tempo em que essa era minha colheita do dia. a cabeça que doía.

doía tanto que pensei naquela época que a dor de cabeça era um jornal matutino.

 

ela doía tanto, que eu até já considerava essa a vida. ela doía tanto que era assim meu dia.

restou aceitar.

e me adaptei.

pessoas têm filhos, pessoas pescam, pessoas têm dores de cabeça diárias.

sempre nos adaptamos.

vive-se em qualquer parte de globo, supera-se a corrida evolutiva. adapta-se ao ambiente. acostuma-se.

como eu tinha me acostumado com a cabeça em combate contra mim, acostuma-se a sempre pedir a mesma pizza no mesmo lugar, a trepar nos dias certos, a beber pra se acalmar.

como acostuma-se as pessoas a trabalhar sem viver.

como acostuma-se a acordar sem a maravilha da novidade deitada a seu lado.

acostuma-se com cansaço, com desgosto.

acostuma-se. habitua-se. adapta-se.

 

mas minha mão ainda dói e me incomoda.

e isso é bom.

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terça-feira, janeiro 11, 2011

Da folha de S. Paulo - Meias

Brilhante texto de Mario Prata, para caderno Cotidiano da Folha.

Meias 

 


A gente acha que difícil são as grandes decisões. Às vezes, são as pequenas escolhas que dilaceram o coração 


A GENTE SEMPRE acha que a mudança virá de grandes resoluções: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente a rota de nossas vidas. Nessa segunda-feira, por exemplo, pela primeira vez em 33 anos, saí para comprar meias. Sou um novo homem.
Talvez o leitor ache que estou exagerando. É que não teve o desprazer de conhecer minha gaveta de meias até 48 horas atrás. Mais parecia "saloon" de velho oeste: poucos pares, estropiados, cada um vindo de um canto -tenazes sobreviventes de diferentes etapas da minha vida.
As três brancas, de algodão, haviam sido ganhas na compra de um tênis de corrida, lá por 98. A marca da loja já quase não se lia, escrita no elástico esgarçado. Pior que as brancas estavam as azuis, da Varig, do tempo em que a ponte aérea era feita pelos Electras, e as aeromoças davam brindes, não broncas.
O pé da meia azul não tinha curva no calcanhar nem na canela: assemelhava-se a um coador de café dos Smurfs. Ou dos Na'vi. O elástico era frouxo, mas o laço afetivo não, de modo que as seguia usando, ano após ano, mesmo diante dos encarecidos apelos de minha mulher.
Em bom estado mesmo só as cinza, com losangos, que peguei para completar o valor na troca de uma jaqueta, presente de natal em, sei lá, 2002. Era a minha "meia de sábado", aquela que vestia para jantares, casamentos e entrevistas de emprego. Além dessas, havia mais três ou quatro, que de tão ordinárias nem merecem meu comentário.
Ah, caro leitor, eu era infeliz e não sabia! Uma vida com poucas meias é uma vida de expectativa e ansiedade. Toda manhã aquele suspense ao abrir a gaveta: quais estariam ali, quais andariam na longa peregrinação que passa pelo cesto, pela máquina, pelo varal?
Cheguei ao fundo do poço na sexta, 31, dez da noite. Minha mulher batia na porta do banheiro, apressando-me para a ceia, enquanto eu, sentado no chão de azulejos, encaixava as meias cinza na boca do secador de cabelos. Não queria virar o ano com os pés úmidos nem gostaria que todos me vissem, quando tirasse os sapatos para pular sete ondinhas, com as velhas meias da Varig.
Naquele momento de angústia, por trás do ruído aeronáutico do secador, dos meus gritos e dos gritos de minha mulher, pude ouvir uma voz grave, que vinha de toda parte e de parte alguma: "Antonio: tu és homem feito. Pagas as contas e impostos em dia. És casado, asseado, vacinado: por que vives nesta penúria?"
Se eu soubesse como era fácil, tinha feito antes: nem cem reais, caro leitor, custou minha alforria. Hoje, se quiser, posso ir a três entrevistas de emprego, dois jantares, seis casamentos e jogar futebol, no mesmo dia, sem repetir as meias. Não terei mais que pensar no assunto até 2019, no mínimo.
Quer dizer, mais ou menos: pois enquanto contemplo a gaveta multicolorida -de "saloon" do velho oeste, transformou-se em baile da corte- minha mulher aparece no quarto, segurando as meias da Varig com as pontas dos dedos, como se fossem camisinhas usadas: "Posso jogar no lixo?"
A gente sempre acha que difícil é tomar as grandes decisões: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas escolhas que mais dilaceram o coração.

ANTONIO PRATA 


antonioprata@uol.com.br

@antonioprata

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terça-feira, janeiro 04, 2011

Da folha de S. Paulo - A ciência da procrastinação

Excelente coluna no caderno Ilustrada de hoje, na Folha de S. Paulo:

JOÃO PEREIRA COUTINHO 

A ciência da procrastinação 


Em janeiro, as promessas para 2011 jazem com 2010. O peso não baixa. O cigarro é ainda a chupeta predileta

O ANO começa e os enganos começam também. Quando o relógio marca a virada, o digníssimo leitor vai elaborando, material ou mentalmente, as grandes decisões para 2011. Perder peso. Deixar de fumar. Trabalhar melhor. Amar melhor. Fazer aquela viagem. Se possível, deixar de roer as unhas.


Em finais de janeiro, as promessas para 2011 jazem com 2010. O peso não baixa. Aumenta. Os cigarros continuam a ser a chupeta predileta. O trabalho continua entediante, massacrante. A relação, definitivamente, não dá. A viagem -enfim, será possível viajar numa altura dessas?

O estresse é tal que já não existem unhas para roer; nem sabugo; às vezes, nem dedos.

Sei do que falo. Também eu sou dado ao delírio. Consulto os meus diários passados e constato, sem surpresa, que jamais cumpri uma única promessa das mil que faço anualmente.

Durante anos, como Samuel Pepys (1633-1703), também nos diários, usava um chicote mental de culpa e frustração para fustigar a minha consciência.

Descubro agora, via "The New Yorker", que o meu problema -melhor: o nosso problema, irmão leitor, é um dos grandes desafios filosóficos do tempo moderno.

Chama-se "procrastinação", mas, na verdade, é maleita que já existe desde os gregos.

Nossos antepassados até tinham um termo mais rigoroso para ela: "akrasia". Significa tomar uma decisão que é racionalmente contrária aos nossos interesses. Ou, no caso em apreço, não tomar decisão nenhuma. Adiar. Mascarar. Preguiçar. E desistir.

Segundo James Surowiecki, autor do artigo, o número de pessoas que admite problemas de procrastinação não para de aumentar em todos os estudos feitos sobre a matéria.

Um dos últimos, intitulado "The Thief of Time" (Oxford, 320 págs.) e analisado com detalhe por Surowiecki, dá apenas um exemplo entre mil: 70% dos pacientes com glaucoma arriscam a cegueira porque não usam as suas gotas regularmente. Deixam ficar para amanhã. Ou para depois de amanhã. Ou para depois de depois de amanhã.

Exatamente como nós: perder peso é um objetivo nobre. Para começar amanhã. Ou depois de amanhã. Ou depois de depois de amanhã. E eis que chega 2012.

Como explicar o fenômeno? Mentes pessimistas diriam: porque somos intrinsecamente preguiçosos.

Outras, mais otimistas, dirão que a preguiça nasce da ignorância: se os homens sabem o que é melhor para eles, agirão em conformidade para seu próprio bem.

A tradição intelectual do Ocidente assenta nessa fé: sabedoria é virtude, já dizia Platão.

Infelizmente, a procrastinação arrasa com tais certezas. E, contrariamente ao que imaginam otimistas e pessimistas, é traço humano e bem racional da nossa condição.

Afirma Surowiecki que todos os nossos planos assentam numa falácia simples: a ideia de que somos, como humanos, consistentes ao longo do tempo.

Mas não somos. A nossa consistência é testada, todos os dias, por fatores que não controlamos e que subvertem a beleza imaculada de nossas aspirações. Uma súbita promoção. Um súbito despedimento. Novos amores. Novos desamores. Alegrias imprevistas. Tristezas imprevistas. Como diria o sábio Nelson, a vida como ela é.

E, na vida como ela é, não dependemos apenas de fatores contingentes. Nós próprios estamos perpetuamente divididos entre o curto prazo e o longo prazo, avisa Surowiecki.

Uma batalha espiritual onde o diabrete do imediato vence o anjo mais distante. Repito: perder peso é uma aspiração nobre. Mas só depois de mais uma fatia de doce.

Conta o autor, em pormenor divino, que o escritor Victor Hugo (1802-1885) tinha por hábito escrever despido, pedindo ao criado que escondesse as suas roupas.

Era a única forma de ele ficar sentado à mesa, a trabalhar, sem ceder à tentação da vadiagem pelas ruas de Paris. Como eu o entendo.
Começa 2011. E nós começamos a construir planos para uma vida mais rigorosa, e saudável, e equilibrada.

Não funcionará. A vida não é assim. Nós não somos assim.

E se existe alguma certeza na "ciência da procrastinação" é esta: objetivos vagos e distantes começam a recuar perante necessidades mais imediatas, mais prementes. Mais presentes.

Ou, inversamente, nossos planos devem ser diários; humildes; transitórios; e sempre frágeis.

Rasgo todas as listas que preparei para 2011. Sem sentimento de culpa. O que será, será. Mas uma coisa prometo: amanhã mesmo,começarei a escrever despido.


jpcoutinho@folha.com.br

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quarta-feira, março 31, 2010

Trinta nanquim

 

Quando acordei de sonhos esquecidos, ele já tava lá: o Senhor Trinta.

preparei uma batida de banana, mamão e maçã com leite e perguntei:

- não era pra ser só as 4 e meia?

-sabe como é essas coisas... fui vindo todo dia. quando a gente viu já tava aqui.

- claro, claro

ele aprovou a batida.

- tenho que ir pro trabalho, mas se quiser, podemos jogar uma partida de PES 2010...

- não sei se tenho idade pra isso...

- qualé, vamo lá. vou te moer.

- vamos ver então.

depois dos 15, só sejoga videogame com alguém pra conversar. perguntei:

- e o que está achando da sua nova casa?

- olha, gostei viu: sem dramas nas janelas, puffs conofortáveis, e alguma boa vontade nas paredes

- sabe se vai ficar muito tempo?

- cara, eu só venho pra ficar. e nunca vou embora, me deposito ali na dispensa. aliás, arruma uma colcha pro Senhor Vinte?

- claro, claro...

 

me levantei e vim pro trabalho, pruma fila institucional de parabéns.

ah, 3 a 0. pra mim.

 

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segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Hoje, me engasguei...

Hoje me engasguei pela primeira vez na vida. quer dizer, foi a primeira vez que me engasguei a ponto de perder o ar e a morte ser uma possibilidade real, ao menos percentualmente. tossi tanto que doeu as costelas. aliás, que ainda dói as costelas.

se eu fosse mais poeteiro poderia dizer que foram as palavras se engasgando em minha garganta, dado o tempo em que não as ponho pra se divertir, só as conduzo aos campos dos roteiros de videoaulas para pastarem um pouquinho e rodear a cerca.

se eu fosse mais 'alma rebelde' - 15 anos atrás, metade dessa história contado pelo tongo, cheia de cor e cura - diria que me engasguei com a insatisfação de dar a própria individualidade, o bom senso e se dobrar pelo dinheiro que pingam no final do mês.

se eu fosse um ator de cinema mudo, com alguém atravessando o compasso na pianola no meio da sessão. eu prestaria atenção na plateia com pipoca e manteiga, daria uma limpada nos óculos cênicos e voltaria para dentro batendo os calcanhares no ar.

se eu fosse um descrente à espera da sua rendenção no liagre que naõa acredito, diria que é um aviso de que está na hora de recomeçar.

se eu fosse um médido, não tocaria no paciente, chutaria a causa mais provável a partir de um diagnosticado mal escutado e o despacharia pra terminar de ver TV.

mas, infelizmente para Haroun e Promethea, era só um arroz na contramão. sem graça, sem metáfora, plasticidade.

preciso rever meu conceito de acidentes poéticos.

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quarta-feira, outubro 28, 2009

Como ir de Curitiba até a USP?

Resolvi escrever algo útil, bicho raro na blogsfera. Útil no sentido de valor prático, no sentido de que a arte é inútil para Wilde.
 
A questão em questão é: como chegar na USP saindo de Curitiba?
 
Eu lembrei que tive infindas dificuldades pra descobrir isso e o que eu mais queria era achar um blog que em dissesse como fazer. Vamos lá:
 
Primeiro: pegue em Curitiba um ônibus da Cometa. Isso é importante. Não caia no golpe do ônibus golden da Itapemirim (já explico);
 
Segundo: chegue na porra do horário, porque senão você não vai lugar nenhum
 
Terceiro: leve a carteira de identidade e deixe o motorista ver.
 
Quarto: seja simpático com o motorista e fale que quer descer na praça perto da USP (decore bem a
palavra código ‘praça da USP’).
 
Quinto: durma no ônibus até umas 11 horas.
 
Sexto: quando o ônibus já estiver na área urbana de São Paulo, fique esperto. Passou pela Vital Brasil (é, um rua) você vai conversar com o motora, lá na cabine, pra não ter risco dele esquecer de você.
 
Sétimo: desça do ônibus e siga o fluxo. Você chegará a um dos portões da USP em 5 minutos de caminhada.
 
Oitava: pra voltar duas opções. OU Pegue o ônibus Jaçanã na frente do prédio da ECA e vá até o terminal Tietê. ATENÇÃO: em torno de 2 horas de ônibus. Leve um MP3 player; OU vá até o posto 2000 e pegue um Itapemirim (agora sim). veja com a empresa em quais horários o ônibus passa nesse posto (que fica na Francisco Moratto, 2300). Dá pra chegar lá de ônibus ou táxi. Eu ia a pé, porque sou mais aventureiro (40 minutos de sola).
 
Dirt road blues - Bob Dylan

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terça-feira, outubro 27, 2009

Esse negócio de manter um blogue atualizado não é fácil. aliás, só
atualizar é tranquilo. mete o trailer do Transformers e foi.

mas acontece que não acredito em filme sem roteiro. nem em colocar
qualquer caracter no espaço. o fundo deste blogue é branco e consome
energia da Terra. que seja por um bom motivo.

por outro lado, com a mudança de endereço - são só uns caracteres na
barra lá de cima, eu sei - dá uma vontade de escrever.

daí chega aqui e: branco (menos caracteres e mais enregia do
planetinha indo pro zebedeu).

pensando nisso, segue uma lista padrão de textos a fazer sempre que
você não souber que texto fazer:

- fale de alguma coisa que aconteceu no trânsito ou no ônibus; (se
você está em casa há quinzenas, invente);
- comente futebol (autoexplicativo);
- fale sobre o processo de escrever em blogues;
- comente de modo perspicaz um filme que você viu (repita clichês e
opiniões sem dó, mas se for com mau humor e ironia, as pessoas
gostam);
- reclame de serviços públicos (repita procedimento do item anterior).

há mais textos possíveis, mas esses aí bastam. outra lição de quem quer
escrever um pouco no blogue é que você deve escrever pouco. pense em caracter, não em caracteres.

ah, uma imagem ou uma música sempre são boas formas de mostrar quão
ligado a novas coisas você é.