eu não estava em Francisco Beltrão. eu estava no ônibus, e em vez de acompanhar o movimento do asfalto que voltava pra Curitiba, fui com Jack Kerouac, me deixando levar até a minha cidade natal. em vez de memórias, o que poderia ser uma boa peça litetrária ainda que clichê, fui atrás de saudades e convivências. fui a Beltrão dizer as meus pais que estava tudo certo, fui mostrar a eles que ainda sou seu filho e confirmar que tudo anda bem.
mas o final do livro de Kerouac chegou a mim antes de que eu chegasse a algum lugar. É uma história escrita daquele jeito já conhecido, em um ritmo alucinado. o personagem do livro leva o nome do autor e Kerouac afirma que a história aconteceu quando ele buscava informações sobre a sua família. dessa história totalmente pessoal sai um relato pormenorizado de vários dias que levaram o prosador beatnik a ter seu satori.
satori é um conceito budista, um momento de iluminação. em um instante, zás, tudo passa ser visto de outro modo, os olhos se limpam e enxergam um mundo novo. eu me interessei por ter um forte flerte com o budismo, pra decepção dos meus amigos ateus. espero que aceitem isso, e cedam a outra face diante de tamanha blasfêmia.
Blasfemo eu induzindo você com um título a acreditar que encontrei meu satori. meus olhos ainda sujos viram o final do livro, minahs mãos imutadas voltaram páginas pra que eu relesse frases, minha razão apegada a entender onde estava o satori, se a iluminação estava entre linhas, se a clareza estava entre caracteres. não, não adianta. o momento passou e foi de outro. a mim restou a boa leitura de Satori em Paris.
Papai Noel existe. À modinha de Mario de Andrade, fundo o manifesto provocativo, cuja a função é contestar o rodriguiano óbvio que ulula(lá), o encerro nesse ponto final.
Aliás, Papai Noel existia. vou te contar o que se passou só lembrei desse história depois que vi:
O dia era 23 de dezembro e levantei pra tomar água. eu morava em Francisco Beltrão ainda. era umas 3 da manhã. na verdade, eu não sei dizer, porque eu não tinha relógio na época.
percebi que Bob e Lucy (os felinos) não dormiam em seu cobertor azul, mas e daí? os gatos são animais existencialistas! ao entrar na cozinha, ele tava lá, coçando a barba:
- entra aí, moleque. calor da porra nesse Brasil, hein? caralho...
- papai Noel?
- papai, não! vai ver se tenho filho que nem você. francamente.
enquanto falava, ele girava a toca na mão e bebia em uma caneca.
- o que tu faz aqui? perguntei, enquanto ele tirava o casaco. por baixo ele usava uma camisa da seleção do Sápmi.
- então, pensei em adiantar um pouco do serviço e já entregar, mas daí olhei pra vodka, ela olhou pra mim, sabe como é... eu entendi porque ele tem a cara tão redonda. ele continuou:
- sabe, os sindicatos místicos são muito complicados: pedi pra sair. tô cansado. me ofereceram vaga de espírito de natal! falei: justo eu que sou tão cético, virar um espírito, é demais, né? acabou que não vou nem fazer esse natal. acabou papai noel. sou só Noel agora. tava pensando em virar compositor. Noel Rubro, sacou?
eu não saquei. na época não. ele se levantou, pôs a luva e bateu no meu ombro:
- falou, guri.
- feliz natal, Noel.
soube, anos mais tarde que o Noel trabalha em programas infantis, respondendo cartas e e-mails do público. sei lá se é verdade.