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sexta-feira, dezembro 02, 2011

Instrumentos de dispersão

se me lembro bem, esquecer é parte fundamental.

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não dá pensar que vai morrer enquanto você come bolacha com chá morno, é preciso esquecer a doença de sua mãe enquanto brinca no YouTube.

Espanamos o que se-foi do presente. mas logo a frente, o mesmo pó continua ali, a recobrir sua bolsa, seus livros e as beiradas das portas que deixa de abrir em seu apartamento.

o meu fugir de mim é pré-instalado de nascença.

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não, acho que o dispersar do urgente que é.

mas gosto de encher a mão com os grãos do importante.

(tem uma diferença Gonçalo-tavaresiana entre urgente e importante).

ou talvez só esteja tentando esquecer algo que deveria lembrar. ou isso é um apartamento fragmentado se reconciliando.

mas me lembrei de gostar disto:

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terça-feira, setembro 20, 2011

do que eu digo quando eu falo...

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sabe, eu acho que ele sempre esteve ali sentado. não, é claro que ele não passou a vida toda ali, é que me lembro do velho, de chapéu, sentado naquele banco, sempre do mesmo jeito. com chuva, sem chuva, tanto faz. sempre ali, naquele banco que já deve ter sido o centro da praça.

hoje, HOJE, é a primeira vez que o velho não tá ali...

é, sim, acho que ele pode ter morrido sim...

não, é bem tristeza, é mais uma coceira no meio da cabeça, como se algo não tivesse certo...

não, não é o velho ter sumido e eu não ver o cara li. não. é mais como se tivessem me feito de metáfora e eu não conseguisse entender.

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quinta-feira, agosto 11, 2011

Menos

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a foto é da livraria Ghignone, de Curitiba. ela está aqui pela cidade desde 1921. mas vai fechar.

amanhã, sábado e acabou.

enquanto isso, o mundo não "mind the gap" em Londres, e apesar de todos os saques, as livrarias foram poupadas das chamas da anarquia.

ou parece que é isso.

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aqui, a Ghignone faz queima de estoque e eu cumpro meu ritual de despedida comprando um par de livros.

um comércio fechar é motivo pra reclamação, pra tristeza, pra blogagem?

se não é, não sei como pode se chamar isto aqui e este por trás das teclas.

é só uma loja, mas fechou umas portas aqui também.

deixa, deve ser só eu começando a fechar minha Curitiba pra abrir casa nova.

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segunda-feira, maio 09, 2011

Passadinho...

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"Recorda: O Tempo é sempre um jogador atento

Que ganha, sem furtar, cada jogada! Ë a lei.

O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!

Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento."

BAUDELAIRE, Charles - O relógio in Flores do Mal (trad. Ivan Junqueira)

tenho tentado.

acho que não o suficiente, mas tenho.

me livrei de jogos do Facebook, reduzi meu período no Twitter e no e-mail, mas o efeito ainda não veio.

a pilha de livros só aumenta (talvez, se eu parar de comprar e emprestar da Biblioteca), os filmes a ver já ocupam muitos GBytes, as correções da pós-graduação em HQ vão se escoando, digo sim a frilas, digo sim a congressos e não começo - simplesmente não começo - a escrever.

a covardia de falhar se banha na arrogância de que posso fazer a qualquer momento.

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em Beltrão, minha mãe disse, meio que por brincadeira:

"se eu tivesse mais um filho, obrigava a ser médico e ganhar dinehiro. de sonhador, já basta um."

como diz Saint Bachelard, o sonho é importante e sem ele não há mundo desperto.

mas a matéria antiplatônica tem de ser erigida e não basta apenas o prático e onírico.

é preciso a consciência do desperdício.

do dia comido pelo próprio dia, oroboro cósmica do puta que te pariu!

que ninguém me fale em passatempo, eu quero um paratempo!

eu quero um fluitempo, eu quero um melevajuntotempo.

nem que seja só por um instante.

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terça-feira, maio 03, 2011

Luto para um amigo

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cercado pelo casamento real de um lado e pela morte (insira sua dúvida conspiratória favorita sobre isso aqui) de Osama Bin Laden, se centra o mais importante - na verdade, pior - acontecimento do final de semana: a morte do escritor e pintor argentino Ernesto Sábato.

não precisa se sentir estúpido ou, pior, fingir que conhece o mestre gringo. pouco falado no Brasil e obscurecido pelos magistrais Cortázar, Bioy Casares e Borges, Sábato chama pouca atenção no meio literário daqui.

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mas essa injusta atenção pequena, é em nada desprezível. a Compania das Letras tem tudo (ou quase) do hombre em sua linha editorial.

o sempre foda Zé Castello escreveu sobre ele. leia.

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eu fui amigo de Sábato.

não, nunca o encontrei, nunca apertei sua mão e passei pelos segundos sem saber o que falar pra um ser humanao que (a mim) é (ainda É) tão admirável. nunca escrevi cartas pra ele ou e-mails (que eu duvido que ele tivesse). mas ele me conhecia muito bem. e eu a ele.

fomos amigos, e nossas conversas, urdidas pelo Túnel, Sobre heróis e tumbas, Homens e engrenagens e tantas outras palabras, apesar de iguais, cometem novidade. sempre.

ele me falava sobre o cientificismo e do racionalismo dogmático, que segundo ele, são a pinoia desse pampa desumanizador.

quando o conheci, em meio de um capítulo de Homens e engrenagens, no primeiro ano de faculdade, eu entendi alguma coisa. até hoje, não estou bem certo o quê, mas entendi. nessa época, Sábato já tinha abandonado a ficção e praticamente parado de escrever. apenas pintava, em sua casa em um lugar chamado Santos Lugares.

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pintava, até que esses olhos, perenes apontadores pro mundo, cansaram. e, nas armadilhas do idioma, no sábado passado, Ernesto Sábato morreu.

eu já tinha sentido que perdia um tio distante quando José Saramago morreu (não se fica impune a ler tanto o escrito de alguém), mas com o Sábato quem se vai é um tio querido, que nunca vi e nem verei, mas que encontrei mais vezes do que a mim mesmo.

como ele mesmo me disse, quando explicava porque a humanidade não se arrebata por uma onda suicida quando compreende sua mortalidade e vacuidade do viver:

"Que valor existiria se trabalhássemos e vivêssemos entusiasmados se soubéssemos que nos espera a eternidade? O maravilhoso é que o façamos apesar de nossa razão nos desiludir permanentemente. Como é digno de maravilhamento que as sinfonias, os quadros, as teorias, não sejam feitos por homens perfeitos, mas por pobres de seres de carne e osso." (Homens e engrenagens, p. 129, Papirus, 1993)

vou continuar a conversar com Sábato. eu me vou um dia, e ele vai continuar a ser ouvido. quem sabe eu mesmo continue a ouvir...

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quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Se o cinema é 3D, a existência é 10 D

vi lá no Trabalho Sujo, mas esse é o vídeo com legenda em português torto.

advirto: não me responsabilizo por nós na cabeça.

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segunda-feira, janeiro 31, 2011

Realidades paralelas

uma coisa que eu gosto são histórias de realidades paralelas. aquelas histórias que respondem o que aconteceria se o Viola tivesse entrada no tempo normal da final contra a Itália, o que aconteceria se o Hitler usasse cavanhaque em vez de bigodinho e se o Curt Kobain tivesse ido estudar no lugar de cheirar cocaína suficiente pra matar um pônei.

esse é um recurso bastante habitual nos quadrinhos americanos. O que aconteceria se o foguete do Superman tivesse caído na URSS? o que aconteceria se Ben Parker não tivesse sido assassinado? e por aí vai...

às vezes eu penso o que teria acontecido se eu tivesse passado no primeiro vestibular e não no segundo. ou se eu não quisesse ver A viagem de Chihiro. ou se, sei lá, não tivesse visto Tarantino na adolescência.

acho que é por isso que eu curto tanto versões de músicas.

é como se em um universo paralelo aquela banda que eu gosto tanto não existisse, mas aquela música precisasse ter mundo. e às vezes, a realidade paralela é um puta escape e um lugar gentil.

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quarta-feira, março 31, 2010

Trinta nanquim

 

Quando acordei de sonhos esquecidos, ele já tava lá: o Senhor Trinta.

preparei uma batida de banana, mamão e maçã com leite e perguntei:

- não era pra ser só as 4 e meia?

-sabe como é essas coisas... fui vindo todo dia. quando a gente viu já tava aqui.

- claro, claro

ele aprovou a batida.

- tenho que ir pro trabalho, mas se quiser, podemos jogar uma partida de PES 2010...

- não sei se tenho idade pra isso...

- qualé, vamo lá. vou te moer.

- vamos ver então.

depois dos 15, só sejoga videogame com alguém pra conversar. perguntei:

- e o que está achando da sua nova casa?

- olha, gostei viu: sem dramas nas janelas, puffs conofortáveis, e alguma boa vontade nas paredes

- sabe se vai ficar muito tempo?

- cara, eu só venho pra ficar. e nunca vou embora, me deposito ali na dispensa. aliás, arruma uma colcha pro Senhor Vinte?

- claro, claro...

 

me levantei e vim pro trabalho, pruma fila institucional de parabéns.

ah, 3 a 0. pra mim.

 

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