terça-feira, fevereiro 08, 2011

Primeiro passo

às vezes, me estranho. nada daquilo de olhar no espelho e perceber que está velho e se estranhar.

não.

faço coisas que acho estranhas.

que não são assim ESTRANHAS, mas incomuns. trilha das obssesões.

sou um conjunto que recebe obsessões e reflete teimosia, embora eu preferia emoldurar em interesse e persistência.

meu mais recente interesse é começar a correr.

e minha persistência é tal que ontem fui a medicina esportiva antes de botar o pé na estrada em alta velocidade.

sério, eu me estranho disso. a medicina aposta em uma frieza e desumanização que me aborrece.

muito.

a diferença entre mim e o estoscópio é quem vai pra orelha e quem vai pro bolso. eu, me fui pra esteira.

a experiência de hamster devia ser partilhada por todos - principalmente pela enfermeira que depila seu peito e pelo médico que nem te olha na cara.

fios saem de pinos colados com fita adesiva no meu torso e o ar entra por uma máscara desconfortável de borracha mezzo fedorenta.

não fale, o doutor pede enquanto vê o iPhone, isso altera a medição da respiração.

ah, então é pra respirar? foto não rola, chefe?

a vida de hamster, realmente, é uma bela merda. além de acharem que você é um rato tucanado, a tal da esteira exige um equílibrio próprio e desconfortável. "você acha que sabe andar e correr? experimente agora, camarada."

mas, persistentemente, corri até doer minha lateral, ergui a mão e o médico parou de olhar os desenhos que meu coração fazia na tela e desligou a roda da vida.

(pelo que vi ontem, a arte não deve vir do coração não. total falta de criatividade do músculo ensanguentado.)

duas vezes por semana e, por que não, um dia do final de semana. essa é constatação depois de muita ciência médica.

nenhuma insuficiência cardio-respiratória, problemas de joelho ou tornozelo ou indisposição psicossomática. É isso: após meia década de baixa atividade física ainda estou dentro do normal. em um momento vate, me imaginei no pan-americano se tivesse treinado e me dedicado. agradeci aos céus e à terra nunca ter feito isso.

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segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Eu vi Biutiful (edição com extras)

eu não tenho como desconectar Alejandro González Iñárritu de Guillermo Arriaga. foi com eles juntos que conheci o seu cinema.

depois de um leve declive em seus filmes - do brilhante Amores perros ao bom Babel - os dois ficaram loucões e quebraram o pau.

fim da parceria.

Arriaga fez um filme que não vi e Iñárritu fez Biutiful.

na sinopse da programação de cinema a gente já vê que Iñárritu quer deixar Arriaga de lado: não são tramas convergentes, mas a trajetória de UM personagem principal em conflito.

esse conflito tem várias faces, mas é, basicamente, o mesmo com qualquer cara: o desmanche do mundo de um homem, encarnado por Javier Bardem, que atua, até onde entendo disso, soberbamente e é o ponto alto do filme.

o mundo mostrado por Iñárritu continua decadente, meio torto e hiperrealista.a diferença vai pra a estrutura da história.

eu vejo que há dois filmes pelo preço de um: um homem (Uxbal) com um mundo desabando, que precisa cuidar de sua família -  composta por duas crianças e uma ex-esposa tomada -; e um homem com seu mundo desabando que transita pela Barcelona dos imigrantes - africanos vendendo na rua material falsificado feito por orientais.

ah, soma-se a isso uma paranormalidade:Uxbal é capaz de ver e falar com mortos.

Iñárritu tenta dar uma dimensão menos heróica a Uxbal (afinal, explora imigrantes e pessoas que perderam parentes), mas ele é tão empenhado em fazer as coisas certas que não há como não sentir pena dele.

em nenhum momento suas falhas são tão destacadas quanto suas qualidades, dificultando uma postura mais esférica do personagem. é uma ética meio "ele é canalha, mas coitado, no lugar dele o que você faria?"

o conflito dele é tentar remontar um mundo que inevitavelmente vai continuar a ruir.

a falha se deve à falta de tesoura. muitas cenas podiam ser descartadas.

mais: acredito que Iñárritu deveria ter escolhido qual história daquelas duas quer contar. as duas somadas mataram a estrutura dramática de seu filme, que não deixa o espectador guardar o lenço.

é tanta cena emocional, que elas acabam se banalizando.

claro, o diretor é de primeiro time e há sim, várias passagens belíssimas. mas é pouco pra tanto filme.

assim como Uxbal, Iñárritu tenta e tenta de novo fazer o certo. mas no final, entre poucos acertos sobra pouco. parece que Arriaga fez falta.

pra outra opinião, leia o Escorel.

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EXTRAS


assisti sábado O diário de Anne Frank (versão de 1980). filme batido, de forte apelo emocional e massacradamente passado pelas escolas de Ensino Fundamental. No final, uma ceninha simplória, que é uma lição de cinema. atuação competente e elipse (veja ali em cima a partir duns 2:45, melomenos).

claro dava pra evitar a musiquinha jacu.

você não precisa ver os nazistas socando a bota nos judeus. basta o pavor das famílias e os olhos resignados de "acabou-se" enquanto ouvem gritos em alemão e marcha militar pra lá de uma porta (por enquanto) fechada.

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domingo, fevereiro 06, 2011

Esquisitos aleatórios

um belo curta, feito com pouca grana, muita sensibilidade e inteligência.

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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Passei o dia todo

passei o dia todo acertando os detalhes da aula de amanhã.

(sim, amanhã me visto de professor e vou falar 8 horas sobre roteiro em uma pós-graduação de HQ).

por conta disso, a única coisa que está na minha cabeça é roteiro de HQ.

assim, vai um Alan Moore falando sobre seu trabalho:

<p>The Mindscape of Alan Moore - Parte 01 from Magister Templi on Vimeo.</p>

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quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Jornal velho - Antonio Prata

Sou fã desse cara!

Saiu na Ilustrada de ontem:

ANTONIO PRATA

Cê tem aí uma faquinha?


Adiaremos sempre o "tá resolvido!", repetindo em seu lugar o angustiante "até aqui, tudo bem"

"DEEM-ME UMA ALAVANCA e tirarei a Terra de seu eixo", disse o grego Arquimedes, no século 3 a.C. "Deem-me uma faquinha e um pedaço de fita isolante que eu a coloco de volta", diria um brasileiro, em qualquer época.


Não há desafio neste mundo -de trocar a fiação do prédio a consertar um carro usando peças do motor da geladeira- que o patrício não se ache capaz de enfrentar, munido destes dois multifuncionais objetos: faca & fita.


A faca, entre nós, é chave de fenda e Philips, alavanca, plaina, martelinho, espátula, pincel, régua, alicate, pá; até como antena de rádio já vi usarem-na, presa ao aparelho por -claro!- um pedaço de fita isolante, sua fiel companheira. Se a faca, clara e brilhante, corta, penetra, separa, desbrava, qual bandeirante varonil, a fita, negra e opaca, une, remenda, conserta, protege, mãe gentil. Eis a dupla perfeita, nosso Yin Yang made in Brasil.


Dia desses, eu estava no banho e senti um cheiro de queimado. Chamei um eletricista. Ele constatou que o fio que ia da caixa de luz ao chuveiro era mais fino do que o recomendado pelo fabricante. "Precisa trocar a fiação, seu Antonio". Fiquei olhando-o com aquela cara suplicante que todo brasileiro faz diante de um problema, esperando por uma solução mágica. Ela veio: "Se bem que, no caso, se eu desencapar aqui na ponta e refizer a ligação, enrolando bastante fita isolante, segura mais uns dois, três meses.


Quer?". "Quero!". "Beleza. Cê tem aí uma faquinha?". Já faz uns quatro meses e, até aqui, tudo bem.


Claro que nem toda faquinha é concreta, nem toda fita é tangível.


Quantos presidentes da República não se elegem prometendo reforma política e tributária mas, chegando lá, dizem que, "se bem, no caso, se desencapar aqui, cortar dali, enrolar acolá, pronto!" O próximo proprietário que troque a fiação - e arque com o custo.

Que não se anime demais o leitor liberal, desses que pensam que os males do país são todos frutos da governança pública e de uns seres maléficos chamados políticos, tão diferentes de nosotros. O que são esses terceiros andares ilegais nas casas de São Sebastião, que o Cotidiano tem revelado? No projeto aparecem como mezaninos; na paisagem, lá estão: um andarzão a mais, a contrariar as leis de ocupação. E as danceterias com alvará de restaurante? E as máfias das autoescolas, que agem junto ao Detran, para "liberar" e "agilizar" a documentação do pessoal? Tudo puxadinho, construído na base da faca e da fita isolante, a criar cômodos e incômodos sobre e sob as lajes da lei.


"Ah!" - diz o brasileiro, em sua defesa - "é que com as leis absurdas" "com os fiscais corruptos", "com o Congresso que a gente tem", "com as lombadas eletrônicas", "com o preço da reforma" -esse fui eu - "não dá pra fazer a coisa correta. Esse país só funciona com gambiarra!"


Então tá. Adiaremos sempre o "tá resolvido!", repetindo em seu lugar o angustiante "até aqui, tudo bem".
Até a hora de o chuveiro pegar fogo, o morro deslizar, o prédio despencar, a luz do país inteiro apagar. Já imaginou que horror, se acontecesse alguma coisa dessas? Deus me livre! -digo eu, e dou três batidas no cabo -de madeira- da minha faquinha.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

Blog "Crônica e Outras Milongas" 
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

É só futebol

olho pra essa foto aí de cima e penso (ainda mais depois de todas as ideias dela sobre foto):

será que esses austeros senhores de alvinegro passaram pelo que passamos nós? será que eles sabiam que era só futebol?

que diferença um mundo globalizado e a internet faz prum cara moendo os dedos contra a lógica?

nenhuma. porém, a tecnologia me conecta bucaneiro pra ver o jogo, já que as TVs não permitem.

(e será que elas não permitem a favor da saúde desses milhões de brasileiros?)

será que os austeros acima sabiam o que causariam enquanto chutavam uma bola pra lá e pra cá?

sabiam qual seria od esdobramento lógicod e seus pontapés?

lógica e futebol são amigos mal-humorados que conversam pouco. e nessa descomunicação começou o tropeço; e que essa descomunicação ofereça o plano pra nos mantermos em pé.

quanto drama, Lielson! Pra que tudo isso?

não é só futebol? pra que sofrer? é só Futebol (repita). é Corinthians (insista):

e não foi sempre assim? (aceite)

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terça-feira, fevereiro 01, 2011

Epistaxe

achei uma palavra no dicionário que eu precisava mostrar.

não sabia de que modo poderia falar dela e resolvi botar ela lé em cima, em destaque, como título e que vai virar o linque da postagem.

pensei em usar de título e me deixar levar pelo que tipo de texto poderia surgir dali.

pensei em simplesmente postar como entrada de dicionário mesmo, com uma imagem batuta, mas me pareceu meio sem graça.

comecei e apaguei um texto em que falava que gostei de epistaxe (lê-se "epistáquesse") porque essa simples palavra no meio de uma listagem tinha me mandando na carroceria da memória lá pra Francisco Beltrão, pra ver a mim mesmo, ossudo e apavorado.

pensei que eu ia acabar fazendo paralelos com Proust e Eisner e ai ser clichê. sem falar de que acabaria me acoitadando.

resolvi que não faria nada disso, mas que faria qualquer outra coisa (até mesmo contra os planos abandonados de escrita), só pra usar epistaxe pelo menos três vezes no texto.

só porque me lembrou de mim. e me lembrou dele:

e dele

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segunda-feira, janeiro 31, 2011

Realidades paralelas

uma coisa que eu gosto são histórias de realidades paralelas. aquelas histórias que respondem o que aconteceria se o Viola tivesse entrada no tempo normal da final contra a Itália, o que aconteceria se o Hitler usasse cavanhaque em vez de bigodinho e se o Curt Kobain tivesse ido estudar no lugar de cheirar cocaína suficiente pra matar um pônei.

esse é um recurso bastante habitual nos quadrinhos americanos. O que aconteceria se o foguete do Superman tivesse caído na URSS? o que aconteceria se Ben Parker não tivesse sido assassinado? e por aí vai...

às vezes eu penso o que teria acontecido se eu tivesse passado no primeiro vestibular e não no segundo. ou se eu não quisesse ver A viagem de Chihiro. ou se, sei lá, não tivesse visto Tarantino na adolescência.

acho que é por isso que eu curto tanto versões de músicas.

é como se em um universo paralelo aquela banda que eu gosto tanto não existisse, mas aquela música precisasse ter mundo. e às vezes, a realidade paralela é um puta escape e um lugar gentil.

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sábado, janeiro 29, 2011

Jornal velho II

procurando uma imagem pra ilustrar a postagem de quinta-feira, encontrei tanta charges brilhantes do Angeli, que elas mereciam uma postagem própria.

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sexta-feira, janeiro 28, 2011

Eu li Como desaparecer completamente

Eu acredito em contexto.

Eu acredito em situação propícia.

E eu acredito em criar clima.

O livro é Como desparecer completamente, nome de música do Radiohead, trilha sonora do seriado Lielson – pra que tudo isso?

Começou com boa vontade o que é bastante propício a ler um livro. Ler o livro em uma viagem a São Paulo e, principalmente, no Terminal rodoviário Tietê é criar o clima adequado.

O escritor André de Leones, autor de Como desaparecer completamente, conseguiu.

(daqui pra frente, é tudo um monte de acho de alguém que se pensa um leitor especialista)

O título é fiel à trama. Diversos personagens, que até nem querem, mas nem se importam tanto assim, estão prestes a desaparecer em São Paulo. Não há aqui enredos mágicos; só pessoas com dificuldades de pessoas.

Relações ásperas e embrutecidas, de personagens que acidentalmente desaparecem num canto (pra, claro, aparecer em outro), mediadas pelo sexo, que iconizam relações mecanizadas e automatizadas, feitas quase por tradição, por que é assim.

Esse contato entre os personagens, que não conseguem se relacionar, desaparecendo dentro deles, e eles dentro da própria cidade, é genial. Nomes de locais de São Paulo e da cidade natal (Silvânia) de De leones surgem na narrativa nomeando personagens, ligando espaço dos corpos, espaço urbano e espaço psicológico.

Já fica claro que eu (ou melhor, De Leones) fala de desfragmentação, de pessoas aos pedaços, de relações quebra-cabeça. E aqui há algo que me satisfaz lendo um livro: a forma e o conteúdo dão um beijo na boca.

Além dos capítulos curtos e rápidos, Como desaparecer completamente usa formas fragmentadas e aos pedaços: e-mail e roteiro de cinema, por exemplo. Excertos que fazem sentido naquele ponto e ajudam a voz narrativa a dizer sobre aqueles personagens. E há muito mais nesse livro de ritmo rápido e fluente, e de impacto forte e duradouro.

e eua li, no Tietê, passando por isso. e depois eu, dentro de um ônibus em Curitiba, fechando a última capa do livro.

As histórias dos personagens se cruzam, mas eles não se encontram. Os personagens desaparecem completa e absolutamente. 

E são encontrados, apenas, na minha lembrança de leitor.

Eis o trailer do livro:

E aqui um programa Entrelinhas com o André:


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quinta-feira, janeiro 27, 2011

Jornal velho

dizem que jornal de ontem já não vale de nada. eu, em protesto, apresento o texto da coluna de Marcelo Coelho para a Ilustrada de ontem.

o tema da ética nacional me interessa particularmente e, embora não pareça pelo início, é disso que o texto trata.

MARCELO COELHO 

Corrompa ou obedeça 


Inspeção veicular, tomadas de três pontas ou nova ortografia: o Estado sempre inventa das suas

VAI TERMINANDO janeiro e, se você for como eu, já está se preocupando com o que deixou de fazer neste ano. Em especial em matéria de burocracia automotiva: IPVA, multas, licenciamentos e revisões. Digo isso porque, até agora, nada fiz no tocante à inspeção veicular do meu velho Astra, já veterano nessa espécie de Enem sobre quatro rodas.
Procurar novamente no mapa o lugar (inexistente, inacessível) onde há "agendamento disponível" para "efetuar" o "controle do meu veículo"? Como assim? Já não fiz isso no ano passado? Ou melhor, não fiz isso há coisa de um ou dois meses, nada mais?
Sim, responde, grave, a voz da consciência. Fizeste a inspeção em dezembro, porque consentiste com meses e meses de atraso descomunal. Viraste o ano, renasce o teu desleixo. Janeiro já faz a conta dos teus pecados.
Eis, entretanto, a boa notícia. Surgem na cidade mecânicas especializadas na inspeção veicular. Ou seja, previnem surpresas desagradáveis na hora da medição das emissões do seu veículo. Fazem mais: agendam a inspeção, levam o carro, devolvem-no perfeito e aprovado.
Não duvido da existência de profissionais honestos nessa nova área de atividade, como os há nas auto-escolas, nos exames psicotécnicos e em coisas do gênero.
Disseram-me, entretanto, que muitas oficinas sabem o truque para passar na inspeção. Desregulam o carro antes de levá-lo aos técnicos da Controlar, que aprovam tudo, e depois o cliente recebe o carro com a desregulagem desfeita, isto é, poluindo tanto quanto devia desde o início.
Muito trabalhoso e inverossímil, penso eu, quando, num bom sistema de agendamento terceirizado, a burla poderá ser feita de comum acordo entre a oficina e algum técnico mais camarada.
Honestas ou não, vejo que pipocam oficinas na própria vizinhança dos estabelecimentos de controle. Vejo também que, com isso, surgem dois tipos de cidadãos.
O primeiro tipo é aquele que entra de cara amarrada na inspeção, pronto a liderar algum movimento contra o sistema. Depois de dez minutos no máximo, recebe o laudo: foi aprovado.
Pude ver, esperando na fila, o sorriso de felicidade desse cidadão; sente-se limpo, cumpriu sua parte, não terá nova chatice antes do ano que vem, seu problema pessoal foi resolvido -e o escândalo, se escândalo havia, já não é mais da sua conta.
O segundo tipo de cidadão é aquele que já recorre direto à oficina especializada e não se incomoda se estiver acontecendo alguma coisa errada por baixo do pano.
Por mais opostos que pareçam, os dois se complementam. Quem paga propina está na verdade se vingando de um Estado que impôs, certamente com fins arrecadatórios, uma fiscalização nova, uma exigência a mais sobre os cidadãos.
Já tentaram tornar obrigatório o estojo de primeiros socorros, como o seguro contra terceiros, a cadeirinha das crianças, e não esqueçamos do próprio pedágio... O cidadão corrompe no varejo em reação ao que vê como corrupção no atacado -as grandes licitações e negociatas para impor legislações desse tipo.
Por sua vez, o sujeito que não paga propina e sai feliz com seu pequeno certificado de plástico padece de mentalidade parecida. Os assuntos públicos não lhe dizem respeito se consegue safar-se deles.
Nos dois casos, o Estado surge como uma entidade alienada, estrangeira, que não está sob nosso controle nem nasceu de nós.
Há outros exemplos disso: a nova tomada de três pontas, que ninguém sabe como foi imposta, e que temos agora de adotar ou de adaptar, para lucro de quem inventou a nova moda. E a nova ortografia, que, uma vez em vigor, todo cidadão de bem se preocupou em obedecer, gastando mais dinheiro e tempo em aprendê-la do que em protestar contra sua criação.
Quase 200 anos depois da Independência, ainda temos do Estado uma visão colonial. Trata-se de uma entidade arrecadatória, nascida de algum reino estrangeiro que inventa novas coisas para nos infernizar e que cumpre enganar do mesmo modo com que nos tapeia.
A corrosão ética da coisa toda nasce, a rigor, da política, e não o contrário: por se tratar de uma cidadania imperfeita, de um autoritarismo latente, de uma democracia sem participação e de um Estado, afinal, sem dono, mas com muitos gerentes e coronéis, é que corromper ou obedecer são as saídas que conhecemos. Não adianta reclamar depois.

coelhofsp@uol.com.br 

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quarta-feira, janeiro 26, 2011

Eu tenho medo...

talvez a Regina mais que eu. mas eu tenho medo.

hoje, o Corinthians faz um vestibular pra saber se tem o nível necessário pra jogar a Libertadores da América (a menina ruiva de todo corinthiano).

serão duas provas: uma de ataque (em casa) e outra de defesa (fora). se não passar nessa hoje, a segunda parte da prova passa a ser de ataque também.

o Corinthians começou a se preparar pra esse teste no ano passado, quando podia ter tido nota suficiente pra entrar direto na escola de grupos - em vez de comer sanduíche de pasta de amendoim, agora tem de se virar.

e a despreparação planejada refletida nos péssimos jogos deste ano, deixa a torcida na expectativa pelo pior. sempre pelo pior.

mas com isso tudo eu sei lidar. o Timão já passou uma fila de 23 anos, foi ganhar um Brasileiro só em 1990 (ah!), já foi pra segundona (vergonha eterna). tô acostumado a torcer além da lógica.

pra que o o time faça o que ainda não fez e nem deu mostras que fará.

E torcer que a RPC não passe campeonato paranaense e me deixe vendo o jogo no Lance a lance da uol.

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segunda-feira, janeiro 24, 2011

Eu vi Scott Pilgrim contra o mundo

e gostei.

já que parece inevitável falar disso, vamos à relação HQ Vs filme. (Scott Pilgrim é originalmente uma HQ)

eu fiz um mestrado defendendo que não importa a fidelidade ao original, mas sim a qualidade da nova obra em seu próprio meio, com relações de "espírito" entre elas.

é bem mais importante ser um bom filme, que o filme muito parecido com o gibi.

e Scott Pilgrim contra o mundo é muito divertido e se sai bem como comédia romântica de aventura, pra a geração que viveu os videogames.

o filme - inacessível ao meu pai - é viver em um videogame e concretizar metáforas: garota do seus sonhos, lutar por essa garota e superar os relacionamentos anteriores.

quando eu comprei a graphic novel, eu pensei: essa história não vai dar certo. a junção de elementos é tão absurda e improvável, e ao mesmo tempo, tão óbvia, que consegue ser muito boa. Comprei também o segundo volume e aguardo pelo terceiro. A versão gringa saiu em seis volumes; por aqui, a Quadrinhos na Cia. os compilou de dois em dois.

(até levei meu gibi pra Londres na metade do ano passado, o autor autografaria o lançamento da sexta e última edição por lá - mas não fui pegar meu rabisco).

metade do ano passado? peraí: se o filme saiu lá fora no segundo semestre de 2010, somando o tempo de produção, quer dizer que o final da HQ só foi feito depois do filme ter começado.

isso aí! e o autor do gibi aproveitou umas ideias do roteiro do filme pra fechar a história. e a relação entre os dois meios é inteligentemente pensada pelo povo da película. por exemplo...

o uso dos ícones é muito importante na HQ. pra manter esse clima, o filme aposta em onomatopeias visuais.

vale gastar um pouco de fósforo nisto, mas ainda não o fiz: o corte a transição de cena do filme (muito rápidas) tem muito a ver com a noção de corte de quadro na HQ.

mas deixando o formal de lado, a Ramona Flowers de Lee O'Malley é, pedantemente falando, uma Helena de Troia moderna e em pixels. representa um objeto de desejo, possível de ser conquistado e que vale uma guerra.

mais sobre a Ramona no blogue do Túlio.e aqui o som da banda do Scott Pilgrim.

eis uma animação pra ser vista antes do filme - mas pode ser agora mesmo:


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sábado, janeiro 22, 2011

Para ler no final de semana

Blogue de tiras francês deveras divertido, sobre Luc Lemploy, do quadrinista François S.

Emploi, se traduzido do francês, é "emprego, trabalho". Com a graça do artigo definido em francês Le se contrair em um singelo L' o nome do personagem evoca também L' employé, ou seja, "o empregado".

E todas as tiras (páginas) são sobre conseguir trabalho, entrevistas de emprego, entregar currículo,etc. E o mais estranho: são ótimas e não se parecem com Dilbert ou The Office!

A única exigência é ler em francês.

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sexta-feira, janeiro 21, 2011

Reflexão pela faca

eu cortei minha mão com faca ontem. até que foi bom.

não sou alinhado a Sacher-Masoch ou genéricos. mas você vai entender.

eu amanheci com muita dor de cabeça.

tanto que pensei num tempo em que essa era minha colheita do dia. a cabeça que doía.

doía tanto que pensei naquela época que a dor de cabeça era um jornal matutino.

 

ela doía tanto, que eu até já considerava essa a vida. ela doía tanto que era assim meu dia.

restou aceitar.

e me adaptei.

pessoas têm filhos, pessoas pescam, pessoas têm dores de cabeça diárias.

sempre nos adaptamos.

vive-se em qualquer parte de globo, supera-se a corrida evolutiva. adapta-se ao ambiente. acostuma-se.

como eu tinha me acostumado com a cabeça em combate contra mim, acostuma-se a sempre pedir a mesma pizza no mesmo lugar, a trepar nos dias certos, a beber pra se acalmar.

como acostuma-se as pessoas a trabalhar sem viver.

como acostuma-se a acordar sem a maravilha da novidade deitada a seu lado.

acostuma-se com cansaço, com desgosto.

acostuma-se. habitua-se. adapta-se.

 

mas minha mão ainda dói e me incomoda.

e isso é bom.

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