amanhã, na Itiban, mediarei o bate-papo entre Rafel Sica, Fábio Lyra, Daniel Barbosa e Samuel Casal.
cada um deles fez uma arte pruma coleção de cadernos e o Daniel encadernou tudo.
vamo lá?
amanhã, na Itiban, mediarei o bate-papo entre Rafel Sica, Fábio Lyra, Daniel Barbosa e Samuel Casal.
cada um deles fez uma arte pruma coleção de cadernos e o Daniel encadernou tudo.
vamo lá?
participei da oficina de contos do Miguel Sanches Neto, aqui em Curitiba.
o exercício fazer um texto sobre trânsito, com base em alguma vivência pessoal.
cometi isto (abaixo dele, os bondosos comentários que recebi do Miguel):
ENGARRAFAMENTO
Tudo parado.
Daqui até onde dá horizonte, mais paradão que pôr do Sol do outdoor.
E eu parado junto.
Alguns outros também olham pra frente, pro relógio, pra frente, pro celular, pra frente, pra além. Vemos todos o mesmo horizonte e, parados, vemos cada um um atraso diferente.
Ainda não estou atrasado, mas chego lá se não chegar.
O horário vai pelo corredor em entrega expressa, vai por baixo do asfalto, vapor de tempo virando fumaça.
Tudo poluído com atraso.
Entro em 15. Deveria. Tem uma tolerância de 5 minutos.
Tolerância?
Tudo parado e eu tenho de tolerar isso tenho de tolerar acordar frio se agarrar em ônibus tratado como boi de abate pelo motorista NÃO pelo chefe e você chega na hora e não tem ‘parabéns’ bônus bolo chega cedo mijada e não pode bater o ponto eu bateria no ponto CHEGA hoje mesmo eu penso peço as contas tô lá mais de 5 anos fazendo tudo direitinho nem atestado pego vou trabalhar doente bato o ponto e fico lá até acabar ontem fui pra casa às 22 agá tô cansado arrumo outra coisa sou novo sei fazer monte de coisa NÃO SOU UMA MÁQUINA sem engrenagens óleo parafuso hehehehe mudo tudo num segundo transformo um instante eu tô atrasado.
Tudo parado.
No horizonte: carros, ônibus, motos, parados.
No horizonte: atraso, desconto, mesma coisa todo dia e a vida indo embora.
Tudo parado.
*********
"Oi, Lielson
é amanhã, sábado!
tem coisa minha, coisa da Van e coisa do Liber na revista
só chegar no aprazível Brooklyn Café, tomar o melhor macchiato da cidade e comprar a sua revista!
nessa semana de empolgação com os bizorros de Liverpool, vamos com covers tão bons quanto os originais - ou até melhores mesmo, mas fala baixo.
uma óbvia
uma obrigatória
uma do I am Sam
uma porque a Van sugeriu
uma porque é suja e agressiva
aproveitando a empolgação com o show do Paul, vai aí um top 5 Beatles, válido por 2011 (ordem variável):
fui no show do Macca no domingo.
tenho tanto pra falar sobre o show, que não consigo.
topicalizo:
- foi demais
- tocou 2 do meu top 5 Beatles.
- foi foda
- as músicas mais batidas, são as mais fodas ao vivo.
- ouvir o cara falando "usei esta guitarra pra compor Paperback writer. vou tocá-la pra vocês" doi foda demais.
- foi tudo certo.
- 24 horas de ônibus valeram a pena.
- aquilo ali foi lindo:
entre idas e vindas da corrida de rua regular, hoje tive minha primeira evolução marcante: fiz todo o meu percurso só correndo e ainda tinha energia pra mais.
pela primeira vez desde que comecei a correr não tive que respirar como um búfalo espirrando.
e o ar de Curitiba tá frio de Pinguim pedir pra ir dentro da geladeira.
milagre? segunda mutação? o contato com o rato me deu novas habilidades?
nope.
aprendi o ritmo de corrida.
o meu ritmo.
levei alguns meses pra encontrar o disgramado, mas agora somos amigos e corremos juntos.
é uma bobagem, coisa pouca, mas depois de ganhar as contas e ter que linchar outro mamímefero, encontrar o ritmo parece o começo da harmonia.
sempre com alguma distorção, pra ter graça.
não teve jeito.
o veneno que joguei, o Senhor Rato estocava prum futuro suicídio.
a ratoeira, o mercado não tinha.
a única pessoa da casa que não treme à menção da palavra ratazana sou eu.
meus princípios éticos foram pelo ralo que o Senhor Rato usou pra chegar à minha casa.
encarei o animal frente a frente.
um duelo entre mamíferos.
não se fala mais em inteligência e artimanhas, apenas em velocidade, agilidade e força.
matei o Senhor Rato a pauladas.
foi triste.
principalmente pra ele.
tinha uma brincadeira uma tortura consentida entre os piás de Francisco Beltrão que se chamava "tratar verdura".
(nunca descriptografei essa)
a regra era mais clara que o Arnaldo: ao ver a outra parte tratada, você deveria dizer 'hoje não'. aquele que não disse 'hoje não', tomaria murros e pontapés até que dissesse a frase código.
por que as crtianças, todas do sexo masculino, participavam dessa ludicidade espartana?
não sei, nunca entendi também.
nem quando tinha idade pra 'tratar verdura'.
mas me deu uma vontade de dizer "hoje não" bem na cara do marasmo e metre-lhe um socão no braço!
eu entrei na cozinha e o rato também. ele tava ali, focinhando vida e eu parado, ainda meio paralizado.
é a primeira vez que eu duelava com um bicho desses.
(por ser pequeno, ele ganha bônus de armadura contra mim).
o rato optou por uma fuga veloz e rasteira para os quartos dos fundos da casa, que ocorreu entre "é, gosto do livro do Dyonélio" e "o Mickey é imensamente mais simpático".
cerquei o perímetro e sei em qual área está. resta agora pôr o rato pra roer grama pela raiz.
mas cada vez que planejo o assassinato do Senhor Rato, ouço o barulho de ossos pipocando.
às vezes, um gemido de vida em fio acompanha.
ele sangra, sabe?
somos ambos mamíferos, temos pelos.
temos ossos que estalam.
optei por uma saída mais shakesperiana: o veneno.
me sinto mal por induzir o Senhor Rato a, em desespero famélico, comer a desvida.
mas é ele ou eu.
que vença o primata.
eu fui demitido.
ontem.
perdi o emprego. estou na rua da amargura. fui chutado. dispensado.
ou como se diz hoje no mundo RHquico: desligado da empresa.
me chamaram com mais 4 colegas pruma sala, engataram o papinho temos uma notícia triste pra vocês, vocês estão sendo desligados.
entregaram um papelzinho carente de assinatura em que, resumidamente, a empresa dizia que me dispensava e que tinha um motivo de enorme alegria em ter trabalhado comigo.
se a alegria fosse tão grande, me manteriam na firma só pelo ambiente feliz que proporciono com minha jovialidade. afinal, funcionários felizes são mais produtivos, até o Toyota sabe disso.
eu não me engano: bom, não foi. ser demitido é uma bosta. mas não é o fim do mundo também.
fim do mundo é te mandarem embora, e pedirem pra você responder um questionário demissional que começa com: "Qual a razão da sua demissão?"
veja abaixo o meu bate-papo com o DW, na sacra estrutura da Itiban, durante o lançamento de La naturalesa.
para ver o resto, vai lá no blog do DW.
impressionante meu movimento facial enquanto falo.
e claro, as malditas mãos que bailam loucamente pelo ar.
patético.
uma passagem - dentre diversas - muito bonita de Sabato, na tradução de Janer Cristaldo:
"Mas nesse momento, naquele caloroso dia de verão, naquele úmido e pesado entardecer, com a transparente bruma de Buenos Aires velando a silhueta dos arranha-céus contra as grandes nuvens tormentosas do oeste, apenas eriçado por uma brisa distraída, sua pele se estremecia apenas como pela lembrança apagada de suas grandes tempestades; essas grandes tempestades que certamente sonham os mares quando dormitam, tempestades apenas fantasmagóricas e incorpóreas, sonhos de tempestades, que só conseguem estremecer a superfície de suas águas como estremecem e grunhem quase imperceptivelmente os grandes mastins adormecidos que sonham com caçadas ou combates." (SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. Abril: 1986, pp. 142 e 143)
"Recorda: O Tempo é sempre um jogador atento
Que ganha, sem furtar, cada jogada! Ë a lei.
O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!
Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento."
BAUDELAIRE, Charles - O relógio in Flores do Mal (trad. Ivan Junqueira)
tenho tentado.
acho que não o suficiente, mas tenho.
me livrei de jogos do Facebook, reduzi meu período no Twitter e no e-mail, mas o efeito ainda não veio.
a pilha de livros só aumenta (talvez, se eu parar de comprar e emprestar da Biblioteca), os filmes a ver já ocupam muitos GBytes, as correções da pós-graduação em HQ vão se escoando, digo sim a frilas, digo sim a congressos e não começo - simplesmente não começo - a escrever.
a covardia de falhar se banha na arrogância de que posso fazer a qualquer momento.
em Beltrão, minha mãe disse, meio que por brincadeira:
"se eu tivesse mais um filho, obrigava a ser médico e ganhar dinehiro. de sonhador, já basta um."
como diz Saint Bachelard, o sonho é importante e sem ele não há mundo desperto.
mas a matéria antiplatônica tem de ser erigida e não basta apenas o prático e onírico.
é preciso a consciência do desperdício.
do dia comido pelo próprio dia, oroboro cósmica do puta que te pariu!
que ninguém me fale em passatempo, eu quero um paratempo!
eu quero um fluitempo, eu quero um melevajuntotempo.
nem que seja só por um instante.
vou-me a Francisco Beltrão.
meus pais e minha infância empacotada em memória cercadas por parênteses de 8 horas sobre rodas.
arrumando malas, trabalhando, escolhendo os livros a empilhar e afins, sobra pouco pro Lugar certo.
(e não seria essa a maldita síntese da minha vida? depositar o tempo no lugar errado mais vezes - tempo? - que eu gostaria?
nos vemos lemos segunda-feira.