quarta-feira, outubro 24, 2012

O mar parecia um sátiro contente após o coit*

Eu e Osvaldo

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[da exposição do Museu da Lingua Portuguesa, em SP: Oswald: culpado de tudo!]

eu sempre gostei de Oswald de Andrade e nunca tinha lido.

gostava sem saber que ele existia.

aí um dia eu li aqueles poemas pau(brasil) pra toda obra, aquela demolição da frase feita e do clichê, aquele humor meio sem graça, uma desseriedade muito da importante. parecia que eu abraçava uma dose concentrada de de açaí com macaunaíma.

daí eu li o Memórias sentimentais de João Miramar. Aì eu li o Serafim Ponte Grande. Aí eu entendi que sempre gostei do Oswald e da sua dança sem rebolado com as palavras.

(há de se confessar que lembro NESTE instante que tive um contato enganoso com o Oswald de Andrade pela citação em um CD da Legião Urbana - como é difícil confessar Legião hoje em dia - que era do Serafim: "O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus" - - descobri depois que a texto se completa com "depois todos morrem" e aquilo me pareceu aperta-coraçãosamente sério --. hoje eu penso que SP da época devia ser bem diferente da de hoje pro Oswald falar em árvore)

 

Ítaca com Serafim

com o aluno O. de Andrade eu soube qual o tipo de texto que eu gosto, que eu faço (cof!), que eu sou (cof, cof, cof!).

eu preciso ter muito cuidado pra não copiar o Oswald. a tentação é vergonhosa e poderosa.

e o lance com o Oswald é a sem-vergonhice.

mas e aí eu peguei pra reler o Serafim Ponte Grande (possivelmente alucinado pelo cinema de Sganzerla, que conversa tanto com a obra de Oswald, que é preciso mandar os dois embora de casa pra dormir) a diversão bate records a cada releitura, claro.

nessas, voltando de algum lugar, paro perto das máquinas pague quanto quiser de livros no metrô.

 

A história de como Lielson de Andrade encontra um livro e de que maneira isos o leva a postar em seu blog

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lá, estava ele ele: Pinto Calçudo ou Os últimos dias de Serafim Ponte Grande. eu descobri: José Ramos Góis Pinto Calçudo, expulso do romance por Serafim Ponte Grande, foi cumprir seu ostracismo numa máquina de livros. fez sentido demais!

convencido que se tratava de um ensaio sobre o Oswald, fiz o investimento em cash.

na leitura circular que sempre faço (orelhas, quarta capa, primeiro parágrafo, cinta/sobrecapa e índice - não nessa ordem) descobri que era uma obra de ficção de Sérgio Augusto Andrade.

que inveja, que desbunde, que delícia!

Sérgio faz um contralivro ao não-livro Serafim Ponte Grande, contando a história a partir da perspectiva do coadjuvante, Pinto Calçudo. as relações com a obra de Oswald estão muito além do óbvio, embora Augusto de Andrade (também queria ser de Andrade, parece que dá certo pra escritor) emule com maestria o humor oswaldiano.

o livro, como sua contraparte, é uma cesta de piquenique de gêneros literários, com alusões claras ao Ulysses de Joyce e a Mario de Andrade, por exemplo. e muita putaria, óbvio. pra tornar ainda mais agravante, essa pérola é o primeiro livro do Sérgio.

é um híbridão, que mistura ensaio, ficção, paródia, desrespeito e homenagem pra falar de Oswald. isso sim é entender do que se fala. se não sacanear, não tá certo. se for muito respeitoso, entendeu errado. se explicar demais, enche o saco.

 

Última frase em busca de um fecho imponente a um texto

não se digere antropofagicamente oswald, se rumina.

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segunda-feira, outubro 15, 2012

Simples consulta

Já conhece aquela do cara que foi no médico e daí tava lá na sala de espera e...

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- senhor [_}?

- sim?

- pode entrar, o doutor ^~^ vai atender o senhor agora.

- obrigado.

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- bem, [_}, o que posso fazer por você? 

- tá.. é o seguinte, ^~^: estou com um probleminha...

- Doutor...

- ahn?

- Doutor, pode me chamar de Doutor ^~^.

- mas aposto que você não fez doutorado, né?

- a lei permite que eu use esse nome e eu gosto. por favor, me chame de DOUTOR...

- certo, estou com um desconforto nas costas.

- tá, exatamente, onde é esse desconforto,  [_}?

- Mestre...

- oi?

- me chame de mestre.

- porque eu deveria...

- é que ainda não terminei o doutorado, na real, acabei de entrar.

- isso é um pouco infantil,  [_}...

- MESTRE  [_}. somos duas crianças em acordo, então, doutor ^~^: a lei me permite isso e eu gosto.

- você acha mesmo necessário...

- com certeza acho.

- bem, "mestre"  [_}, onde é sua dor?

- à esquerda, abaixo da omoplata, "doutor" ^~^.

- não gostei das aspas...

- sabe que doutor DE-VERDADE é um grau maior que mestre, né?

- eu sou de verdade! e posso exigir que me chame de doutor, que vai parecer sempre melhor que mestre. vire-se, por favor.

- pensei uma coisa: era mestre dos magos ou doutor dos magos.

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- sei que é Doutor Estranho, não mestre estranho.

- nunca quis ser mestre de RPG? porque doutor de RPG, só se for um clérigo apelão... e é webmaster, né? não webdoc. acho isso significtaivo. sem falar que um bom jogador pode ser um mestre da bola.

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- o sócrates era doutor...

- ele era. mas aposto que se pudesse escolher ia preferir ser mestre. no rap é MC, não DC. mais um ponto pra mim.

- ponto pra você,  [_}? O...

- MESTRE  [_}, por gentileza. Doutor Yoda ele não é...

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- olha, isso tá ficando ridículo...

- ridículo é alguém que não sabe reconhecer o valor do mestre. o desrespeito e dessignificação da autoridade do mestre é um retrocesso na educação!

- Do que você tá falando?

- não me olhe assim, não confunda autoridade com autoritarismo. me empresta teu bloco de anotações doutor ^~^.

- tó. mas pra quê você...

- tô te receitando uma Hannah Arendt pra essa situação. vou também colocar um Foucault em gotas, mas só em caso de não melhorar da sua doutorite. pelas suas pupilas posso perceber algum grau de bom senso ainda...

- mestre [_}, não tô entendendo..

- leu o médico rural do Kafka? bem, vamos fazer assim: tome essa Arendt que receitei, exercite ensaios 2 x por semana e artigos científicos outra 3. eu volto a te visitar em uns 20 dias. acha que consegue dar conta?

- sim, eu... acho que consigo...

- grande, nos vemos em 15 dias. pode me escrever um email caso as coisas fiquem difíceis. aí eu receito uns comentadores pra facilitar a entrada, tá?

 [_} levantou-se e saiu. ^~^ passou os próximos dias ansiosos pelo retorno do mestre. ocupava seu tempo com aulas de alemão e filosofia.

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sexta-feira, outubro 05, 2012

Histórias que imaginei enquanto usava o transporte público de São Paulo # 3

(primeira versão)

OU A volta para casa de Ulisses

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ela, vestida de blusa de onça e jeans, atravessou a plataforma de mãos dadas com ele, que estava de tênis, calça larga e camiseta estampada.

ela, com seu salto médio, pisa firme nos olhares que a acompanham até a ponta da plataforma, onde existirão as últimas portas do trem, daqui a poucos minutos. ele, mal olha para ela. segue firme, apressando seu passo curto para não atrasar o conjunto, com olhar firme, pra frente.

ela para ao lado da última coluna, onde o teto da estação deixa de ser e o coloca a frente dela. ela olha pra baixo, mas ele não olha pra cima. ele vê um rapaz bebendo água pra apagar com antecedência o calor da superlotação. e é a partir da água, que tanto já se falou em dicionários de símbolo, que lhe fluiu a palavra, pequena como ele, mas inteira: - água! tem? - quer água? acho que não t... ela interrompe o texto e o raciocínio. a busca por aquilo que ela sabe não ter ocupa toda sua vida dentro da bolsa: não, não está ali. - água? ele insiste, sem acusar, só pedindo mesmo. - não tem, filho. quer o mamá? - não... ela passa a mão no cabelo dele e ele se senta. - filho, não senta no chão que tá sujo, tá? ele apoia as costas na pilastra, se equilibra e mantém-se de cócoras. quase levanta o pescoço até ela, mas prefere olhar paras as pernas que vem-e-vão. - … isso, é, assim pode, filho... ela coloca os óculos escuros, confere o relógio da estação, olha pra o celular, o guarda na bolsa, mas não sabe que horas são. vê um espaço no banco a alguns metros. ele, já em pé, a ronda. - senta lá, filho. eu te espero aqui. puxado (ou empurrado), ele vai e trepa no banco. balança as pernas. e olha pra mãe pela primeira vez. fica pouco no banco, como se o impulso que o levou até lá fosse um empréstimo a ser devolvido. corre de volta e novamente ronda as pernas da mãe.

ela leva a mão nos cabelos deles, que não a impede, nem a incentiva. - como foi na casa de seu pai? - … - ele fez bolo pro você? - não... - mas era seu aniversário, ele não... não tinha bolo? - tinha bolo de chocolate. confusa pela ilógica, mas divertida pela mesma razão, a mãe continua: - bolo de chocolate é bom. - é... - tava gostoso? - me dá o carro? ela volta a cavocar a bolsa até tirar um pequeno brinquedo vermelho. em uma exploração cinematográfica, poderia se usar um ponto de câmera em contraplongée, valorizando a inundação solar, aproximando lentamente da mão da mãe, garantido o foco no objeto envelopado pela luz natural, faiscando de vermelho. mas não, isso não aconteceu.

ele pegou o brinquedo e fez os seus personagens (que ainda emprestarei um dia) dirigirem um veículo em alta velocidade nas paredes de um edifício gigantesco. tudo é possível aos heróis. - ó! e mostra pra sua mãe uma epifania em plástico: além do milagre de dar vida a quem não existe, ele também é capaz de tirar as rodas do carrinho. admirada como aqueles que veem sua fé confirmada, sua mãe diz: - puxa, mas ele não é feito pra isso. cuidado pra não quebrar, tá? - tá... as rodas voltam ao seu lugar e toda a magia se converte em um trem que chega.

ela passa a mão na cabeça dele de novo, ajeita sua bolsa e o pega no colo. - o bolo era pra festa, não era pra mim. ele diz perto das bochechas da mãe. - ai, Ulisses... e ela ri como fazia tempo que não conseguia. Mãe e filho entram no trem e se sentam. o trem parte e eles navegam, juntos. marinheiros. Ulisses errará por 14 anos até encontrar sua esposa e livrar sua casa dos pretendentes.

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quarta-feira, setembro 26, 2012

Mais uma vez, na sala de cinema

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enquanto eu subia a escada rolante da estação consolação, eu praguejei contra a senhora, toda passeante, que não deixou a esquerda livre para os apressadinhos e atrasados. que não deixou a esquerda livre pra mim.

corri pelas calçadas augusta abaixo até chegar ao cinema, interrompi uma moça confusa, que queria comprar uns ingressos pra teatro e não sabia o que fazer, e peguei meu bilhete gratuito praquela sessão da mostra.

me apressei pela porta sem funcionário pra rasgar o ingresso, achei o meio da cortina preta, entrei, localizei a Van e me sentei.

entre dois ufas e goles d'água, desliguei o celular, e fui sugado imediatamente.

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eu saí daquela sala de cinema na rua Augusta, eu estava em um mundo de granulados, luzes e cores envelhecidas.

por 45 minutos, eu vivi dentro de Vestígio.

a singela e delicada história sobre os últimos fios de vida de Uno Kawase, avó que criou Naomi, a diretora do filme.

não há muito o que falar que não pareça piegas, por isso a Naomi fez um filme – que é emocional no melhor sentido da palavra. as imagens e a construção do filme é tão certeira que a avó/mãe de da Naomi se transforma.

Uno Kawase se torna a mãe de todos nós, que todos sabemos (sem querer pensar muito nisso) que enterraremos um dia. eu nunca estarei preparado pra isso que sei que vai acontecer. pra ver que saber e entender nem sempre se entendem.

é o caminho da vida que nos tornemos órfãos.

a beleza e a sutiliza dessa ameaça tão forte, cria uma rede frágil, que enrola todo o expectador. e o expectador se vê em Uno. é certeza da vida que assim que nossos pais morrem, que sejamos os próximos.

a dicotomia dessa vidinha curta e sempre mal-aproveitada com o final certo assustam, apavoram e comovem.

se há filmes que fazem a experiência de cinema valer a pena, esse é um deles.

quando Naomi encerra o filme ("muito obrigada"), sou arremessado de volta na cadeira no meio de uma sala escura. Vanessa e eu nos pegamos pela mão e saímos dali.

eu sei que algo intenso aconteceu em mim, mas não sei se um dia serei capaz de entender.

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quarta-feira, setembro 12, 2012

Gibiteria e Quinto Mercado de Pulgas

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sexta-feira conversarei com Diego Gerlach, DW e Pedro Franz na Gibiteria, na praça Benedito Calixto. vai ter lançamento de Alvoroço, do Gerlach e do terceiro volume de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, do Pedro. o DW e eu vamos lá pra avacalhar, embora ele possa pelo menos falar sobre a HQ que está terminando.

sábado, às 11h30, estarei em uma mesa sobre quadrinhos infantis, no Mercado de Pulgas, com Cassius Medauar (JBC) e Paulo Maffia (Abril/Disney). o evento vai ser bem pertinho do metrô Vila Mariana.

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quinta-feira, setembro 06, 2012

Encrenca, de Manoel Carlos Karam

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a literatura é notória em lembrar, é um exercício de memória e lembrança (tem diferença?).

talvez, por exigir tanto da memória, que o entorno literário seja tão bom em esquecer. ou talvez seja por isso que ele é bom em solapar, pra daí esquecer.

tive a sorte de ser um "vidaloka de estante de biblioteca" (como soa ridículo isso) e emprestar livros completamente na lôca - nessas li Jean Genet, Osman Lins, Campos de Carvalho e muito mais gente que esqueci.

fui numa dessas que eu li Pescoço ladeado de parafuso, de Manoel Carlos Karam. e como aquilo era insano, doentio, lindo e sei lá mais o quê.

lembra que falei de memória coisa e tal ali no começo? pois bem, esse é o momento de justapor as informações e gerar uma ideia, que é óbvia, não?

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[Manoel Carlos Karam, por Pedro Franz]

pra mim, Karam é um autor mal-tratado pela memória literária. ele não é negado, pois para ser negado é preciso ser visto, coisa que acontece pouco com ele.

Karam morreu em Curitiba em 2007. de lá pra cá, pouco se falou de sua obra.

(meu sonho é que uma editroa bem hype lançasse a obra do cara, pros putinhas de editora comprarem e descobrirem esse material - enfim, sonhos sem creme são de graça)

pois bem, sendo eu essa criatura karamzeada ia ver Fausto e por um "erro de agenda" precisei esperar 4 horas até o filme começar. fui e comprei um livro transportável o bastante pra atravessar esse tempo.

entrei na Martins fontes da Paulista e quase levei o Tu não te moves de ti, da Hilda Hilst, mas peguei pelo rabo d'olho o Encrenca do Karam. 

o livro, em primeira pessoa, é sobre um cara que anda por uma cidade imaginária de carro, imaginando-se perseguido por uma ambulância cheia de enfermeiras sinuosas, indo e voltando de um bar chamado About, onde bebe drinks que se chamam Bambu e Gerard. esse narrador, especialista em achar coisas, vive se perdendo em pensamentos.

mas o que acontece no livro?

quase nada. mas é um dos nadas mais divertidos e habilidosos que eu li. a manipulação de tempo e espaço que Karam lança nas páginas do livro é fantástica. só lendo pra entender (Aqui tem trecho do livro.)

uma prosa vergonhosamente original salpicada de muito humor e de muitas ideias. o texto do Karam não se parece com o grande romance (sul)americano da vez, nem com "a voz" de sua geração. as pretensões são outras, de outros formatos e tamanhos.

faz falta mais escritores desse tipo, de prosa alucinada, que alucinam seus leitores.

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segunda-feira, agosto 27, 2012

Leiturosseia do Ulysses - desembarque

tem dia que a gente é Ulisses. sai pruma guerra sem sangue e sem troianos e só quer chegar logo em casa casa antes mesmo de terminar de trancar a porta.

aí você se perde aqui ou ali e não volta.

tenta voltar, navega, quase se afoga, naufraga, fracassa, fracasa, fracassa.

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todo mundo é meio Leopold Bloom, Molly Bloom, Stephen Dedalus.

todo mundo tá lá naquele livro, nadando, perdendo e perdendo.

até que um dia você chega em casa e desaperta os sapatos.

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o Ulysses de James Joyce é sobre isso. sobre sair e voltar, sobre perder.

feche os olhos e veja: você está em casa.

Sim.

 

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segunda-feira, agosto 20, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dezessete - Ítaca

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XXIII da Odisseia, com o o reencontrod e Ulisses e Penélope]

finalmente Leopold Bloom volta a sua casa depois de diversos capítulos longe. o paralelo de suas peregrinações é com os 20 anos de aventura de Ulisses longe de Ítaca. uma última aventura o afasta de chegar: ter esquecido a chave. para entrar ele pula o portão e entra pela porta dos fundos, só então abrindo a porta para Stephen Dedalus com uma lamparina na mão.

eles se sentam, bebem um chocolate quente, conversam sobre aulas de italiano que Dedalus poderia dar a Molly. Stephen também recebe a proposta de pernoitar na casa da rua Eccles, 7, mas recusa a oferta. antes de ir, Stephen e Bloom mijam lado a lado, numa espécie de reconhecimento pelo baixio corporal (grotesco bakhtiniano?) um do outro. também comentam o céu estrelado.

Bloom volta para casa e bate com a cabeça na mobília (referência ao banquinho atirado contra Ulisses disfarçado em seu palácio na Odisseia), que foi mudada de lugar. também há evidências de Rojão Boyland pela casa toda e Leopold está convicto que ele e Molly treparam.

diferente da Penélope que se resguarda dos pretendentes, a fogosa Molly não se mantém casta esperando o retorno do maridão aventureiro. um detalhe é revelado: Blomm e Molly não trepam desde a morte de Rudy, o filho do casal, alguns anos atrás.

isso de certa maneira explica a compreensão Bloom da infedelidade conjugal de sua esposa. interessante a inversão do estreótipo masculino-feminino nesse caso. e em vez d eum Ulisses amtando a lançadas e flechadas nobres de Ítaca, Bloom pensa se se divorcia ou não e assume claramente sua impossibilidade coma ideia de matar qualquer homem.

Leopold sobe as escadas e encontra sua mulher deitada dormindo. ele se deita com a cabeça nos pés da cama e beija a bunda da Molly, que desperta e eprgunta coisas do dia. ele conta algumas e oculta outras. e o livro vai para seu próximo capítulo com o famoso monólogo de Molly Bloom.

vale destacar também as lembranças do pai suicida de Bloom,  deprimido como Laertes, pai de Ulisses. diferentemente do épico homérico, aqui a tristeza levou o velho à morte.

a linguagem é das mais divertidas. é um jogo de perguntas e respostas que se propóem objetivas, mas dado o adiantado da noite, os narradores estão sonolentos e enrolados. uma simples pergunta se parece com um tratado, fora a embromação para responder - parecendo piada com o Homero, cujas perguntas mais simples tem respostas muito longas.

lembre-se sempre: para Joyce todo o mundo ficcional é linguagem. portanto os eventos da trama interferem diretamente no modo narrativo.

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quarta-feira, agosto 15, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dezesseis - Eumeu

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XVI da Odisseia, com o Ulisses, telêmaco e Atena na cabana do Eumeu, o porqueiro]

Leopold Bloom leva Stephen dedalus para tomar um café, comer alguma coisa e curar o porre numa espelunquinha. Dedalus é o mala que espera-se dele, enquanto Bloom o tenta imrpessionar, pois gostaria de afinar sua amizade com ele.

no mesmo lugar, um marinheiro chamado W.B. Murphy conta histórias absurdas do que viu ao redor do mundo e que agora volta para ver sua mulher após muitos anos no mar.

(quem aí não se lembrou do Ulisses do Homero, por favor, estapeia a própria testa)

no fim, Bloom paga a conta e conduz Stephen para sua casa, que será o próximo capítulo.

o episódio homérico trata do encontro de Ulisses com Eumeu, seu fiel servo e porqueiro, disfarçado de um pedinte. Isso começa no canto XIII e se alonga por muitos outros, inclusive com chegada de Telêmaco. as relações mais visíveis estão nas conversas sobre política, amor e fidleidade em um lugar precário.

a técnica é a narrativa velha. vale lembrar que aqui começa o terceiro capítulo e os outros dois capítulos abriram com a narrativa jovem e com a narrativa madura. esse narrador aqui se perde, deixa frases pela metade, como se estivesse meio esclerosado, ou até mesmo com sono depois de tantas páginas. em vez de contar de forma simples, tudo é alongado e cheio de volteios.

aqui fica claro a força intelectual de Stephen e as limitações de Bloom, porém, sobra a boa vontade e o grande coração de Leopld em oposição ao blasé maleta do Stephen. resumindo, mesmo comendo com voracidade rins na manteirga eu beberia uma cerveja com o Bloom e não com o Stephen.

Se a primeira parte abriu com Stephen e a segunda com Bloom, a terceira parte começa com os dois.

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sexta-feira, agosto 10, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quinze - Circe

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[página da adaptação para os quadrinhos de A odisseia, de George Pichard]

esse capítulo é uma verdadeira zona.

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ele se passa no bordel. Stephen, Mulligan, alguns outros estudantes de medicina e Leopold Bloom são convidados pelas profissionais do sexo a dispender seu rico dinheirinho com uma noite de exultância carnal.

o grupo todo, menos Bloom, faz a festa com o bolso do Stephen, que toca piano e canta, muito louco de bebida.

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no final, o sensato Leopold, convence Stephen a ir embora. mas antes de sair, o jovem Dedalus quebra uma lâmpada sem querer e as cortesãs exigem o pagmento do reparo em um esquema superfaturado digno de uma CPI ou da

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Bloom argue que não e paga só o devido, sendo que ele já havia se autointitulado guardião do dinheiro de Stephen. isso não acaba bem e após um linda discussão com um militar britânico Dedalus toma-lhe uma porrada na cara e desmaia.

os guardas chegam para ver qualé e são convencidos, de boa, a vazar. Mulligan ajuda Stephen e o conduz direto para a terceira parte do livro, o capítulo 16.

esse capítulo é totalmente alucinado na parte da linguagem e escrito como uma peça teatral com rubricas e entrada dos nomes dos personagens antes de suas falas. Bloom é transformado em mulher e em porco num momento hilário (e também coroado governador), Stephen encontra o fantasma de sua mãe em um momento apavorante e o livro gera um momento incrível para o leitor. sem dúvida o capítulo que mais me emocionou e me deixou doido foi este.

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(sem falar no final tocante em que Bloom revê o filho morto)

essa alucinação toda tem a ver com a base homérica do capítulo, que é Circe, uma senhora mágica que exala sexo, no Canto X da Odisseia. Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos depois de chapa-los com o velho truque do boa noite, cinderela (que devia se chamar boa noite cronos) e o próprio saqueador de cidades só se salva porque Hermes deu a dica: come essa flor aqui que tu fica imune - detalhe importante: a flor se chama móli -- molly, móli, ahn-ahn?

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aí o Ulisses, coitado, é obrigado a trepar com a Circe pra livrar seus homens da maldição. ele faz o esforço e eles navegam para casa ou quase isso. tá aqui um resumo mais completo do episódio.

o capítulo mais longo do livro provavelmente deve sua imensa paginação à formatação de texto teatral - que palpito eu, seria escrito em formato de roteiro audiovisual se Joyce conhece o formato que se usa hoje em dia.

pois bem, atravessamos 15 capítulos e duas partes, no capítulo seguinte já estaremos em Ítaca e muito perto do fim já saudoso dessa odisseia.

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segunda-feira, agosto 06, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Quatorze - Gado do Sol

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[o pôster bacanudo é do Nicholas Girling e pode ser comprado no site dele]

apesar do Paulo Coelho dizer que não gosta e que o Ulysses é um livro vazio, continuo com a minha leitura por pura teimosia, pois, afinal, o que mais pode ser dito depois de dom Paulete? 

ao livro que fez mal à literatura: este é um dos capítulos mais audaciososo do Ulysses - também chamado de difícil e de ilegível. veja só: a cena se passa na maternidade, onde a Sra. Purefoy está há dias em um parto complicadíssimo e Leopold Bloom resolve visitá-la. lá no hospital encontra Stephen e uma galera aprontando todas e bebendo mais ainda.

por alguma razão, Bloom fica com pena de Stephen e resolve cuidar do moleque pra ele não fazer merda. então a criança Purefoy nasce bem e todos resolvem cair na gandaia e Bloom vai junto. daí, o próximo capítulo que se passa num bordel.

o episódio homérico é aquele que os marinheiros do Ulisses desobedecem o aviso e carneiam os bois de Hélio, o Sol, para comer, invocando contra eles, óbvio, the furious anger do deus.

é mais um dos quiprocós da Odisseia: quando tudo parecia que se arranjaria, alguén faz uma cagada e eles não conseguem voltar pra casa. e você achava que a Uni era um problema.

agora, precisamos pensar com a cabeça do Joyce: ora, se a história se passa numa maternidade, com alguém nascendo, é óbvio que a linguagem tem de acompanhar. se algo nasce, a língua nasce também diante do leitor, mostrarei as raízes da lingua inglesa e parodiarei escritores importantes para o estabelecimento do idioma. é óbvio.

para os interessados em conhecer cada um dos textos parodiados, recomendo esse link aqui. e este ótimo resumo aqui também, ó.

nesse capítulo, o tradutor tem de sapatear. o Caetano Galindo optou por procurar correspondências de textos formadores do português para parodiá-los, o que me parece uma solução mui sensata. esse, sme dúvida, é o capítulo mais pra nerd de literatura do livro.

porém, marca outro fator importante pra prosa de ficção do século XX e XXI: a paródia e o pastiche.

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segunda-feira, julho 30, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Doze - Ciclope

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto IX da Odisseia, com o ciclope enchendo o caverão de vinho]

a história se passa num boteco, onde o Bloom vai para esperar a chegada de Cunningham. enquanto espera, é maltratado por algumas outras pessoas e principalmente por um personagem chamado Cidadão. e seu cão babento, claro.

gosto muitíssimo deste capítulo. o narrador é um personagem não identificado, que também está nessa mesa com o cidadão. aflora o preconceito contra estrangeiros e judeus conforme as bebidas são entornadas.

o Cidadão representa o ser preconceituoso, reacionário, militarista e nacionalista. ele mantém a postura de que está sempre certo, e tem uma visão limitada, que não admite questionamento. ele é o ciclope do episódio homérico.

como os ciclopes tinham um olho só, não tinham perspectiva. assim como o Cidadão que não enxerga nada em perspectiva.

na Odisseia, Ulisses e sua tripulação são aprisionados por um ciclope, Polifemo, que pretende os devorar um a um. o monstro sai durante o dia para pastorear suas ovelhas e coloca uma enorme pedra na entrada da caverna que impede a saída dos marinheiros.

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[adaptação xuxu em HQ da Odisseia, por George Pichard]

Ulisses, matreiro que só, arma um jeito de escaparem: embebeda o ciclope e afia um tronco de árvore que ele usa para furar o olho do monstrengo. depois, amarram-se junto às ovelhas para poderem fugir da caverna, já que Polifemo sentia pelo tato o que estava passando e permitia a saída das ovelhas.

no final ainda, Ulisses diz que o nome dele é Ninguém e dá uma trollada de linguagem no ciclope, que pede ajuda aos outros ciclopes, e explica que ninguém o deixou cego. no final, todo mundo foge e Polifemo atira pedras contra os barcos.

no Ulysses do Joyce, o combate acontece ideologicamente (embora o Cidadão atire uma lata em que o cachorro nojetão dele come contra o Bloom no final do capítulo). eles sentam lá, discutem, Cunningham chega, Leopold vai embora, e mói o Cidadão com respostas inteligentes sobre o sionismo.

quando ao modelo da narrativa, me dá até comichão na barriga de comentar: chamado de gigantismo pelo Joyce, ele usa de paródia de diversos estilos e de vários formatos, tipo cartas e atas, sempre com um discurso que busca engrandecer o ato mais banal, como o Bloom subindo as escadas que tem uma descrição de tom bíblico, lembrando a ascenção de Elias aos céus. aqui tem uma bela anotação sobre esse capítulo.

além disso, quem narra a história, mormente, é aquele personagem desconhecido que não gosta do Bloom, o que gera um ponto de vista muito batuta pra história.

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sexta-feira, julho 13, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Dez - Rochedos Errantes

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[Mapa de Dublin]

a partir desse capítulo o grau de diversão lielsônica extrapola as escalas. a vontade que tenho é de continuar relendo os mesmos capítulos, mas sempre que me encorajo de seguir adiante, encontro outro capítulo tão divertido quanto o anterior.

temos 19 pequenos trechos da história de cidadãos de Dublin. entre eles os nossos caros Stephen e Leopold, e também Simon dedalus, as irmãs de Stephen, Rojão Boylan, e vários outros. todos eles andam pelas ruas de Dublin e a cada trecho nos oferece um ponto de vista sobre a urbanidade da capital irlandesa.

embora independentes, os trechos reaparecem encaixados nos outros como pequenas informações: descobrimos quem é o homem que perdeu o bonde no primeiro trecho e pra onde ia alguns trechos depois, por exemplo.

uma informação em um site que diz que a primeira parte, a caminhada do padre John Conmee e a última, a carruagem real que atravessa a cidade, são citadas em todos os outros trechos.

somando isso com a frase de Stephen sobre os dois senhores no capítulo 1, a igreja e a monarquia inglesa, temos uma puta ironia sobre os valores que percorrem as ruas de Dublin.

a técncia narrativa aqui chama-se labirinto, e consiste nessa deliciosa multiplicidade pontos de vista quebradas em pequenos trechos, capaz de gerar um quebra-cabeça para aqueles que pretendem encaixar todas as ações na ordem.

o episódio homérico não existe.

é, não tem.

os rochedos errantes era uma opção de navegação. a outra era passar entre Cila e Caríbdis, que foi o que Ulisses fez e é o capítulo nove do livro de Joyce. de acordo com as notas da versão da Alfaguara do Ulisses, o mito dos rochedos errantes é fruto de uma ilusão de óptica, que fazia os marinheiros acharem que as pedras se moviam para afundar os navios.

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quinta-feira, julho 12, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Nove - Cila e Caríbdis

METABLOGUE ON

como me atrasei nas postagens - minha leitura de hoje encerrou o capítulo 12 do livro - vou fazer uma única postagem por capítulo, sem separar as relações com a Odisseia de Homero. esse procedimento deve continuar até eu chegar em Circe, que é um capítulo gigantesco.

METABLOGUE OFF

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[National Library of Ireland, onde se passa este capítulo]

esse capítulo todo se passa dentro da biblioteca de Dublin. Leopold Bloom vai até lá em busca de uma referência para o anúncio de seu cliente, Shawes, enquanto Stephen Dedalus usa sua metamaticafísica para explicar sua tese sobre o Shakespeare, o fantasma de Hamlet e graus de parentescos dos mais diversos. ou seja, a narração deste capítulo é colada em Stephen - e é muito valiosa a difernça entre os "textos" dele e de Bloom.

toda a conversa entre Dedalus e um bando é sobre Shakespeare, com toneladas de citações. para destravar todos os segredinhos desses intertextos, tem de ser um grande leitor do bardo inglês. há, claro, muitas indicações e intertextos com a literatura em geral.

outra aspecto notável deste capítulo é o uso de figuras de retórica, que invadem o texto inteiro, que teve sua técnica narrativa batizada de dialética por James Joyce. ou seja, há muita tese, antítese e síntese na formação do texto.

interessante notar o preconceito contra judeus - especificamente Bloom - que já transparece nos comentários desse grupo. e não é agora ainda que Dedalus e Bloom se encontrarão.

o paralelo homerico é o seguinte: Circe adverte o Ulisses que ele tem duas opções para sair da ilha, ou enfrentar de um lado os Rochedos errantes, que são basicamente umas pedras que se movem pra lá e pra cá (parece aquelas fases de pulo do Mario Bros.) ou enfrentar Cila e Caríbdis.

Cila é um monstro de seis cabeças que devora humanos e vive nas rochas cercadas de mar. Caríbdis é uma espécie de buraco negro aquático que atraí e naufraga navios com golfadas de água e ondas, mas até onde entendi, também é um ser vivo.

Ulisses opta por passar entre Cila e Caríbdis, mais perto de Cila, pois com o sacrifício de alguns marinheiros eles passariam por ali, diferentemente de um naufrágio que mataria a todos - claro que os marinheiros não são informados de seu papel de patê de monstro marinho.

no paralelo joyciano, Dedalus (e não Bloom) é obrigado a tomar defesas de suas posições, sendo atacado de todos os lados por argumentos contrários e passando entre eles para sair inteiro.

como curiosidade, em inglês, "estar entre Cila e Caríbdis" é o equivalente ao "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" ou "entre o fogo e a frigideira". mais sobre isso aqui.

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quinta-feira, julho 05, 2012

Leiturosseia do Ulysses - Capítulo Oito - Lestrigões

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eis o momento do almoço. Leopoldo Bloom vai prum forra-bucho depois de ser expulso da redação do jornal. Todo este capítulo é ligado à comida. começa com a descrição de crianças comendo doces, vai pro Bloom que compra um pedaço de bolo pra dar pros pássaros e sai em busca de um lugar pra almoçar. ele vai rodar por Dublin até entrar num pub e ficar enojado com a forma que as pessoas comem e com o cheiro do lugar. pensa sobre o vegetarianismo e resolve comer um lanche mais comedido em outro lugar.

a escolha do lugar leva Bloom a passear por Dublin, levando em conta que precisa passar na biblioteca - que será o cenário do próximo capítulo.

nesse trânsito, Bloom é informado da sra. Purefoy, que está em um parto bastante difícil. ela vai ser visitada por ele no capítulo 14. a técnica narrativa chama-se peristáltica, cujo nome deriva de movimento peristáltico, que é o movimento involuntário, que por exemplo, o esôfago faz para engolir a comida. a ideia é que são movimentos não racionalizados que levam a comida ao seu lugar adequado.

no caso da narrativa, são as ações e as palavras que empurram o personagem e a atenção do leitor em direção do final do capítulo. o capítulo conduz toda a narrativa para o seu final. há váriaspistas dos próximos capítulos espalhadas.

o paralelo homérico daqui é com o episódio do Lestrigões, no canto IX, um povo canibal que devora alguns marinheiros de Ulisses e destrói todos seus navios, menos um, o do valoroso filho de Laertes (o Ulisses). se eles sõa canibais e se portam como selvagens, o capítulo de Joyce é sobre comdia e repugnância.

atenção para indicações olfativas e palatais. depois do lanchinho do senhor Bloom, vamos para a biblioteca.

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