se eu pudesse inventar uma lenda de internet (tipo o final lost da Caverna do Dragão) seria de que T.S.Elliot escreveu seu Wasteland enquanto esperava em aeroportos.
depois do raio-x entramos numa terra de ninguém, com grandes marcas vendidas a dólar e sem impostos, de vários idiomas e de nenhum wi-fi disponível.
estive numa cápsula fora do tempo entre Curitiba, às 18 h de ontem e o aeroporto, seguido de uma série de metrôs, trens e overgrounds, às 18 h de hoje.
ainda assim, deu tempo de tomar dois pints de cerveja e descobrir que batata frita não muda nada com um atlântico no meio. amanhã, ao centro de Londres.
entre malas abertas que esperam ser fechadas e ansiedades líquidas que esperam ser vazadas, vou comprar um protetor solar.
é o paradoxo da troca de hemisfério em menos de 24 horas. Curitiba, uns, sei lá 4 graus, Londres uns 15.
- mas não precisa protetor solar pra Londres, homem. só chove naquela porra.
tem razão, mas a esticadinha em Paris pode requerer doses extras contra a queimadura do sol europeu.
******
eu vou viajar de coturno. porque como meu leitor implícito (diga olá pro pessoal, Wolfgang) já disse chove pra caraio em Londres.
entretanto, moro em Curitiba, onde os objetos optam por mofar com frequência.
o esperto leitor (incluindo Wolfgang), já presume, por justaposição, que meu coturno deve ter mofado.
como tirar mofo?
vinagre, claro.
opa! problema grave. a medicina ainda não diagnosticou (eu acho que não) essa fobia, mas tenho intolerância grave ao sumo de uvas podres.
alistei a caridosa Van Rodrigues (conhecida como companheira dessa viagem curta à Europa e como comparsa de todos os curtos e longos) para que fizesse o trabalho que sou plenamente incapaz.
valente, Van, foi vinagrou e venceu.
o foda é o cheiro acre que domina a maloca.
***********
sou um clichê de minha memória.
sempre entro em pânico quando viajo longe e tenho um limite espacial de livros e músicas.
quando viajava pro interior nas férias da UFPR levava em torno de 60 CDs pra 2 semanas. O mp3 resolveu minha vida.
ontem olhando pra estante, livros que eu já li rodopiaram em minha mão (garantias, afinal só vou levar um tomo).
entre dúvidas, optei pelo gigantesco
**********
tudo pronto pro aeroporto, só falta sair o fedor de vinagre de minhas botas, zipar na mala e passar frio na terra de ninguém entre os portões e o avião.
eu tô com um problema. Sério. o problema é sério. embora seja irrelevante. mas como é meu e é sério, ganha algum contorno.
eu tenho levado o blogue a sério. muito a sério. tão a sério, que ele ficou importante. tão importante que o texto que surge aqui, deve ser bom. muito bom. tão bom que não é fácil de fazer, tão não-fácil (EU SEI que é sem hífen, mas sou um escritor caprichoso) que não faço. se não faço, não posto, não blogo, nada há pra se ler aqui.
claro, há uma razão pra isso? é evidente, é fácil de saber. embora eu não saiba qual é.
aconteceu muita coisa nesse tempo: não consegui escrever e tentei umas experimentações; consumi minhas economias pagando as contas; tive que voltar a escrever roteiros institucionais, mas não deu; precsiava de algum dinheiro pra pagar minhas aulas de natação; fugindo de credores, cheguei à casa dela.
fiquei um tempo lá, me vendi, me aluguei, me diverti - é verdade. mas não escrevi. nem uma maldita linha. nenhuma uma abençoada linha. chegou o tempo em que a falta de atender a mim mesmo me afundou. e novamente tive que fugir dessas cobranças de dentro de mim
escapei, corri e mergulhei fundo e agora me sinto, perdido e ainda sem rumo. ao léu. e sem ter aprendido a nadar.
sempre conversamos sobre o futebol. eu, com a função de alimentá-lo de notícias do Corinthians, já que meu pai além de morar no interior, não manja (ou maneja) internet.
entre a possível saída de Felipe da meta alvinegra e a improvável reforço de atacantes ao elenco do Timão, falou:
- tu te lembra do Epídio? irmão do tio Carlos?
- lembro, tudi bem com ele?
- é... pode-se dizer que mais nada de mal vai acontecer: ele morreu.
- ih, caramba... e o tio, ficou abalado?
- sempre, né? sabe como ele é. infarte, tava ali em Ampére e morreu.
- do nada?
- é, mal súbito.
- triste...
- triste, né? Ele tinha a minha idade.
em seguida ele voltou ao protocolo. E o trabalho? E o clima? Mais alguma novidade do futebol? mas naquele pequeno instante, ele se mostrou inteiro: lembrou que as pessoas morrem.
óbvio, mas e nossa segurança pra viver. esquecer que a morte é um fio de cabelo, é um apendicite.
------
liguei pro meu pai
- (...) mas então, tudo certo com os tios?
- tudo, tudo.. tudo bem... tu lembra do Rafael? Rafael Benneb.
- Rafael, Rafael... aquele que estudou comigo no pré?
- isso...
- ele não tava em uma clínica de reabilitação... drogas, né?
- tava, saiu e tava bem... até que começou a beber.
- muito?
- ele morreu de cirrose essa semana.
- ele fazia a niversário em março também, sabia....
protocolo. minha vez de pensar na vida em fios de cabelos enrolados.
Desde 1994 eu acompanho a Copa do Mundo da FIFA (FIFA Worlds Cup) com dedicação. No ano do tetra e na desgrameira da França, vi todos os jogos possíveis - os impossíveis eram os que tinham o mesmo horário.
(inclusive fica aqui o pedido de um cidadão honesto, que paga seus impostos e vê as propagandas dos patrocinadores: sem jogos no mesmo horário. Porra, Fifa! Porra!)
Em 2002, quase reprovei em uma disciplina de marketing (é, eu me formei em publicidade) porque troquei diversas aulas por jogos da Copa. Como não reprovei, vejo essa situação como a mais pura vantagem.
Em 2006, eu trabalhava o dia todo. Ainda assim, ajustava meus horários de almoço pra poder ver a etapa decisiva de vários jogos – acho que vi todos os jogos da Itália. O resto ouvia pela internet numa rádio inglesa, que eu obviamente compreendia muito pouco.
Em 2010, estarei trabalhando e vou ver todos os jogos das 15h e ouvir no rádio o das 11h. Mas o que vou sentir falta é não poder ver jogos da Viva World Cup.
Isso, VIVA world cup.
A FIFA se gaba de ter mais filiados que a ONU. Mas isso não quer dizer que todas as seleções do mundo estão no quadro da entidade máxima do futebol.
Quem ficou fora da Festa da FIfa, não se acanhou e montou a sua: a NF-Board é uma entidade paralela que congrega os não fifados no certame chamado VIVA. O site da entidade mínima do futebol é este, mas existem melhores informações na boa, velha e não confiável Wikipédia.
Esse ano, em sua quarta versão, o torneio mais importante da federação menos importante do futebol será disputado no Gozo.
Mas nem a presença do tibet entre os filiados faz com que tudo seja paz e harmonia na NF-Board . Houve dissidência em relação a organização da primeira VIVA World Cup e o pau comeu. Nessas surgiu a nova entidade mínima do futebas: a KTFF, organizadora do ELF.
ELF, óbvio, é Equalité, Liberte et Fraternité. Óbvio!
KTFF, que é a federação de futebol do Chipre DO NORTE, infelizmente, não trouxe a furo outro torneio ELF, sendo seu único campeão a seleção, vejam vocês, do Chipre do Norte. Coincidência?
Não há menor dúvida que falta ao mundo descobrir esses dois saborosos torneios. Eu apostaria que uma seleção da Linha Formiga, no interior de Francisco Beltrão, não faria feio e poderia trazer essa honraria pro Brasil. Fica aí a provocação!
Eu, do meu lado, pelo menos até que se organize a seleção beltronenese, sou torcedor do Tibet.
O coringa bonachão do Super-amigos que passava na Xuxa:
http://images3.wikia.nocookie.net/marvel_dc/images/thumb/2/23/Joker_-_NAB_01.... <i>A piada mortal</i> (1988), uma das melhores histórias do morcego de todos os tempos. Roteiro de Alan Moore e arte de Brian Bolland – muito da personalidade do Coringa no filme <i>Batman – Cavaleiro das Trevas</i> foi apresentada nesta HQ:
<i>Asilo Arkham</i> (1989), outro épico dos bat-quadrinhos. Escrito por Grant Morrisson e ilustrado magistralmente por Dave McKean, como em <i>A piada mortal</i>, o loucura do Coringa é melhor dimensionada. A idéia do palhaço vai sumindo em detrimento ao avatar da força caótica:
http://www.posters57.com/images/AlexRossJoker.jpg Um curta que era o melhor filme do morcego, <i>Batman: dead-end</i> (2003), até a franquia de Christopher Nolan. Aqui, o coringa é bastante parecido com o da série animada da década de 90:
Teve uma época da minha vida que achei por bem acolher uma dor de cabeça dominical e, como se o desagradável fosse uma lagoa onde minha cabeça afundasse assim convivia: uns iam a missa; a mim vinha as dores de cabeça.
como o tempo, a dor foi se profissionalizando a ponto de me fazer escorar as paredes mais próximas de mim, pois poderiam cair tamanha insatisfação minha cabeça acusava.
me formei em publicidade, passei no vestibular de Letras e entrei no mestrado usando a técnica da cabeça doída. e o quero coisa de domingo virou roupa de bater todo dia.
certo domingo me dei conta do problema, quase que por acaso, quase que sem querer, quase que por quase: enrolando meus cabelos distraído diante de um chato campeonato inglês de football encontrei lá um objeto pontiagudo.
imediatamente o retirei de minha cabeça e percebi que era uma espécie de barra inclinada que mantinha seu ângulo de 45 graus em relação ao mundo não importa o que acontecesse. avaliando o material e comprando com materiais similares de uma apostila sobre tipografia, entendi se tratar de um acento agudo.
fiquei preocupado se aquilo não prejudicaria minhas, à época, idéias. mas percebi que o acidente da solução me tornava um homem de vanguarda e que ideias não precisam de acento, precisam de clareza.
minha cabeça ficou, desde então, doida, mas não doída. guardei o agudo no armário, caso eu precise fazer outro vestibular. ou outra reforma ortográfica.
Nos últimos dias, tenho lido bastante sobre a censura, nas mais diversas formas de expressão artística, mas particularmente nos quadrinhos. A censura hoje está escondida sobre o manto do politicamente correto.
Quando você compra um livro, de modo geral, não existe uma classificação etária sugerindo que esta ou aquela obra só possa ser lida por adultos ou pessoas maduras. Não é o que ocorre nos quadrinhos, principalmente nos Estados Unidos, país onde a HQ precisa de bula para alertar pais, censores e os chamados defensores da moral e dos bons costumes.
Recentemente, o Brasil também voltou a entrar nessa dança e teve alguns incidentes relativos à adequação dos quadrinhos, classificação etária e um pequeno surto histérico sobre a importância dos bons costumes e a “devassidão” da nona arte.
Você já deve ter notado que só os frequentadores e os vendedores das comic shops é que são presos com a compra ou venda de uma revista considerada inapropriada por um motivo qualquer. Ninguém é detido comprando na Amazon, na livraria da esquina ou no jornaleiro (se bem que nos Estados Unidos faz tempo que não se vende quadrinhos em bancas de jornal).
Quando uma criança assiste a um programa de TV às 23 horas, e, portanto inapropriado para sua idade (uma vez que as TVs se autocensuram adequando sua programação para os horários nos quais se imagina que as crianças – todas elas anjos de inocência – já estejam dormindo), ninguém bate na porta da sua casa para punir os pais que permitiram tal ato.
E são raríssimos os incidentes nos quais um cinema é multado ou fechado por permitir a entrada de jovens para assistir a um filme inadequado à sua faixa etária.
Nos quadrinhos estadunidenses é comum que toda a indústria crie rótulos, classificações, se autocensure de acordo com os interesses de lojistas, distribuidores e outros grupos com a desculpa que estão defendendo o artista e o mercado de HQs.
Depois de ler uma série de textos escritos por Frank Miller, Alan Moore, John Byrne, Mark Evanier, Amanda Conner, Neil Gaiman, Steve Bissette, relativos à censura nos quadrinhos nos últimos 30 anos, tive um surto mental e rapidamente produzi a tirinha abaixo, inicialmente postada no meu Flickr, e reproduzida aqui a pedido do Sidney.
(Clique na imagem - reduzida para não atrapalhar a diagramação - e depois em all sizes para ampliar)
Hoje me engasguei pela primeira vez na vida. quer dizer, foi a primeira vez que me engasguei a ponto de perder o ar e a morte ser uma possibilidade real, ao menos percentualmente. tossi tanto que doeu as costelas. aliás, que ainda dói as costelas.
se eu fosse mais poeteiro poderia dizer que foram as palavras se engasgando em minha garganta, dado o tempo em que não as ponho pra se divertir, só as conduzo aos campos dos roteiros de videoaulas para pastarem um pouquinho e rodear a cerca.
se eu fosse mais 'alma rebelde' - 15 anos atrás, metade dessa história contado pelo tongo, cheia de cor e cura - diria que me engasguei com a insatisfação de dar a própria individualidade, o bom senso e se dobrar pelo dinheiro que pingam no final do mês.
se eu fosse um ator de cinema mudo, com alguém atravessando o compasso na pianola no meio da sessão. eu prestaria atenção na plateia com pipoca e manteiga, daria uma limpada nos óculos cênicos e voltaria para dentro batendo os calcanhares no ar.
se eu fosse um descrente à espera da sua rendenção no liagre que naõa acredito, diria que é um aviso de que está na hora de recomeçar.
se eu fosse um médido, não tocaria no paciente, chutaria a causa mais provável a partir de um diagnosticado mal escutado e o despacharia pra terminar de ver TV.
mas, infelizmente para Haroun e Promethea, era só um arroz na contramão. sem graça, sem metáfora, plasticidade.
quem me conhece, sabe de minha difícil relação com a comédia. ou melhor, com os filmes de comédia. e relação tem tudo a ver.
pois é na não relação que tudo acontece. ou melhor não acontece.
não rio com o Jim Carrey, talvez naquele filme lá, e só.
não acho graça no clássico Pete.
detesto Bohat e tudo que esse cara faz. me entedia.
mas isso não faz de mim um cara sério, sisudo. só não tenho as sinapses necessárias pra rir dessas coisas.
rio com o Monthy Python. e vendo a cerimônia de enterro de um deles eu entendi o porquê.
é sério. não é um quadro. é um enterro mesmo. aliás, não é sério. eles não se levam a sério. nada é levado a sério. nem a comédia. comédia que se leva a sério me chateia mais que pessoas que se levam a sério. blogs que se levam a sério me entediam também.
se quero me levar muito a sério, não escrevo. ou isso é só uma desculpa de um cara que quer se levar a sério, sem parecer nada tão sério assim?
isso tá começando a perder a graça. se é que um dia já teve...
Papai Noel existe. À modinha de Mario de Andrade, fundo o manifesto provocativo, cuja a função é contestar o rodriguiano óbvio que ulula(lá), o encerro nesse ponto final.
Aliás, Papai Noel existia. vou te contar o que se passou só lembrei desse história depois que vi:
O dia era 23 de dezembro e levantei pra tomar água. eu morava em Francisco Beltrão ainda. era umas 3 da manhã. na verdade, eu não sei dizer, porque eu não tinha relógio na época.
percebi que Bob e Lucy (os felinos) não dormiam em seu cobertor azul, mas e daí? os gatos são animais existencialistas! ao entrar na cozinha, ele tava lá, coçando a barba:
- entra aí, moleque. calor da porra nesse Brasil, hein? caralho...
- papai Noel?
- papai, não! vai ver se tenho filho que nem você. francamente.
enquanto falava, ele girava a toca na mão e bebia em uma caneca.
- o que tu faz aqui? perguntei, enquanto ele tirava o casaco. por baixo ele usava uma camisa da seleção do Sápmi.
- então, pensei em adiantar um pouco do serviço e já entregar, mas daí olhei pra vodka, ela olhou pra mim, sabe como é... eu entendi porque ele tem a cara tão redonda. ele continuou:
- sabe, os sindicatos místicos são muito complicados: pedi pra sair. tô cansado. me ofereceram vaga de espírito de natal! falei: justo eu que sou tão cético, virar um espírito, é demais, né? acabou que não vou nem fazer esse natal. acabou papai noel. sou só Noel agora. tava pensando em virar compositor. Noel Rubro, sacou?
eu não saquei. na época não. ele se levantou, pôs a luva e bateu no meu ombro:
- falou, guri.
- feliz natal, Noel.
soube, anos mais tarde que o Noel trabalha em programas infantis, respondendo cartas e e-mails do público. sei lá se é verdade.
é por causa dele, o Sr. Ruído, que na casa da comunicação tomam-se largos goles de redundância. dá pra pensar numa oposição entre a redundância e o ruído.
o ruído é um estrangeiro: vêm de fora, tratando de outros temas, puxando outros assuntos, fazendo um delicado estardalhaço, jogando tintas, batendo portas.
não é a primeira vez que falo sobre esses malditos: o som do ruído/mm me põe num intervalo, em queemudeço. eu ouço eles, e ali na frente do palco, a redundância da rotina perde pra aqueles sons, barulhos e algo que jé me faz perder os vocábulos entre as camadas de guitarra e as afinações fantasmagóricas - aqueles pedais prendem almas, eu sei.
que bom que a Van conseguiu achar um léxico pra pôr voz em cima daquele instrumental. ela escreveu 3 (?) histórias a parir de 3 canções desses 3 vezes devaneadores. ela pôs ruído verbal no meio de uma beleza instrumental. e ouvi dizer que isso é só o começo de outras interferências.
os textos estão no site da Mojo Books. Mas o tio facilita a leitura de vocês, com links diretos - basta clicar no leia - e as músicas correspondentes: